Sociologia e música: Sobrevivente, de Gabriel, o Pensador

Sociologia e música: Sobrevivente, de Gabriel, o Pensador

Por Cristiano das Neves Bodart

Que tal utilizar uma música para fomentar discussões/reflexões sociológicas em sala de aula? A Música de “Gabriel, o Pensador”, “Sobrevivente” é um bom exemplo de música.

Comentários iniciais

Gabriel é, sem dúvida um dos maiores representantes do rap brasileiro e da música “Sobrevivente” dialoga abertamente com o trap, subgênero cada vez mais popular da cultura hip hop. A letra é composta fortes rimas em forma de protesto, traz diversos temas contemporâneos, tais como a intolerância, a falta de empatia, a violência, a depressão, a redes sociais, o descaso com os mais pobres e desastres ambientais recentes.

Duas propostas para a aula de Sociologia
  1. discutir o uso da música como estratégia de protesto e resistência da população periférica. Para embasamento do professor, recomendo a dissertação de mestrado intitulada “RAP: Insistência, Resistência, (Re)existência Relatos de Rappers da Baixada Santista”, de Theo de Sá Guimarães Cancello (2019). Indico também o artigo “Análise do rap social como discurso político de resistência“, de Leslie Colima e Diego Cabezas (2017).
  1. discutir a letra da música, buscando apresentar as figurações (sob uma perspectiva eliasiana), a fim de demonstrar que as questões e fatos relatados na música não são fenômenos isolados, antes parte de uma rede de relações. Recomendo ler a entrevista dada pelo “Gabriel, o Pensador” sobre a composição da letra AQUI. Para uma dica de orientações de como usar letras de músicas em sala de aula, recomendo o artigo “Os usos de letras de músicas nas aulas de Sociologia”, de minha autoria (2012).
Letra da música indicada

Música: Sobrevivente

Composição:

Sangue pra sua sede ódio na sua rede

Seus ouvidos têm paredes

E as mentiras travam a sua visão

Tempos sombrios, peitos vazios

Você foi estrangulado quando o ar ficou pesado dentro do pulmão

Sopro de vida mal agradecida

Do parto à partida, nossa presença aqui devia ser uma missão

Se a vida é um sopro, eu abro a janela

Se o mar é de lama, eu uso as minhas velas

E busco a luz no fim da escuridão

Vou me libertar da escravidão da mente

Exalar o que é impuro do meu coração

Mas não quero a liberdade isoladamente

Liberdade vigiada é ilusão

A calamidade, a banalidade

A dignidade já ficou no chão

Chove impunidade

Quando a lama invade, morre uma cidade, morre uma nação

Anestesiados pelas novidades vistas pelo Insta ou na televisão

Nós compartilhamos nossa insensibilidade quando atrocidade vira diversão

O suicida estava prestes a pular

As pessoas se apressaram pra pegar o celular

As memórias estavam cheias e pediram pra esperar

Por favor, não pule agora, nós queremos te filmar!

Ele ouvindo lá de cima não entendia bem

E não reconheceu ninguém na rua

Mas achou que aquela gente lhe queria bem

E que aquela dor não era mais só sua

Desistiu de desistir, retomou a calma

E todos foram embora quando ele desceu

O silêncio aliviou a sua alma

E o milagre foi que nada aconteceu

Deus ‘tava vendo um jogo lá no céu

Um anjo deu caneta e o outro deu chapéu

Não sei se era um menino do Flamengo

Ou qualquer outro adolescente da Rocinha

Da Mangueira ou do Borel

Quantas mães em desespero choram nos seus travesseiros

Toda noite um pesadelo

Quantas mais farão apelos pela justiça divina

Já que a justiça não veio

Pânico, assalto, chacina, estupro, arrastão, tiroteio

Pra eles não importa, gente viva ou gente morta

É tudo a mesma merda

Os velhos nas portas dos hospitais

Crianças mendigando nos sinais

Pra eles, nós somos todos iguais

Operários, empresários, presidiários e policiais

Nós somos os otários ideais

A paz é contra a lei e a lei é contra a paz

Essa tribo é atrasada demais

A morte é banal

Nos filmes, nos games, na vida real

Matar é normal

Na sala de aula em Suzano e na verba roubada por baixo dos panos

Preconceito racial, social

Intolerância religiosa, sexual

E os poderosos alimentam a ignorância

Que sustenta a sua ganância e tudo fica sempre igual

Sangue pra sua sede ódio na sua rede

Seus ouvidos têm paredes

E as mentiras travam a sua visão

Tempos sombrios, peitos vazios

Você foi estrangulado quando o ar ficou pesado dentro do pulmão

Sopro de vida mal agradecida

Do parto à partida, nossa presença aqui devia ser uma missão

Se a vida é um sopro, eu abro a janela

Se o mar é de lama, eu uso as minhas velas

E busco a luz no fim da escuridão

Me libertei da escravidão da mente

Derrubei o muro que separa a gente

Professores são heróis diariamente

Obrigado por plantar essa semente

Na mudança do presente, eu moldo o futuro

Essa lama não vai ser maior que a gente

Vou em frente porque o meu amor é puro

É o abraço do bombeiro com o sobrevivente

 

Clip da música

 

 

 

Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Docente do Centro de Educação da Ufal.

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