O rito da “Chegada”

O rito da “Chegada”

Por Cristiano Bodart
Em
férias, na cidade de Ouro Preto- MG, não pude deixar observar um ritual
bastante rico de significados*; trata-se de uma espécie de rito de conquista. Vou
chamá-lo de “chegada”, pois assim chamam tal ritual o qual diz respeito aos jovens
daquela cidade.
Dois
adendos são necessários para a continuação desse relato: i) os ritos ali
observados se repetem em outros grupos, embora teria sido a primeira vez que
esteve tão próximo aos meus olhos e passível de serem observados por mim por um
longo período; ii) não tenho a pretensão de realizar um relato antropológico
exaustivo, apenas compartilhar algumas observações  e impressões iniciais em torno do rito.
Em
companhia de minha esposa, historiadora e amante das riquezas materiais que
aquela cidade proporciona aos olhos, estávamos na noite de Ouro Preto em um
restaurante, precisamente ao lado de uma janela, a qual tinha vista para uma
rua próxima a Praça Tiradentes, onde ocorria o “Festival de Samba de Ouro
Preto”. Nessa rua havia muitos jovens bebendo, fumando, “papeando” e,
principalmente, dando umas “chagadas”. A riqueza antropológica me chamou
atenção de imediato e, a partir daí, fiz o convite à minha esposa para observarmos
tal riqueza simbólica, cujo complemento se deu a partir de uma conversa com um dos
grupos de jovens que observávamos no local.
A
“chegada” parece ser um rito de conquista com poucas variações ritualísticas,
embora bastante complexa e merecendo um estudo mais aprofundado e atento.
Os envolvidos no rito
Em
sua maioria, os participantes parecem possuir de 11 a 20 anos de idade e
pertencente a classe social menos favorecida, embora a maioria se esforce para
vestir roupas e bonés de “marca”. Em conversa com um grupo, este nos revelou
que são da cidade e que a maior parte das pessoas que eles buscam se relacionar
são da região.
Tanto
os rapazes, quanto as garotas, andam em grupos de 3 a 6 pessoas.
A divisão dos papéis sexuais
A
divisão dos papéis sociais é bem marcada e clara nesse rito. Os garotos ficam,
parados em pontos estratégicos onde esperam a passagem das meninas.  Enquanto cabe a eles ficaram parados esperando
as meninas para “chegarem”. A elas cabe a tarefa de subir e descer a rua para
serem abordadas pelos meninos.
O preparo
O
ritual é bastante rico em detalhes. Os rapazes estando em locais estratégicos
na rua mais afastada e ainda movimentada observam as garotas ainda a alguns
metros, escolhendo uma delas pela aparência física. A escolhida será a que
deverá ser conquistada.
A
rua escolhida é aquela onde o diálogo é possível, ainda que tendo que conversar
ao pé do ouvido e quase aos gritos por conta do som auto da festa, mas que não
esteja com aglomeração demasiada, a fim de permitir a observação e o
deslocamento das garotas.
A chegada propriamente dita
Escolhida
a garota, vai-se de encontro a ela interrompendo seu trajeto se colocando à sua
frente. Nesse momento, pergunta se ela quer “ficar com ele”. Nessa hora, cabe a
garota escusar-se por alguns instantes enquanto faz sua avaliação do rapaz,
levando em conta a “azaração” (cantada) do pretendente, a roupa e sua aparência
física. Se o rapaz for de seu agrado ela cede ao pedido e deixa-se beijar e
recebendo um abraço apertado, tendo as mãos percorrendo parte do corpo da
garota(o que eles chamam de amasso), marcado por um demorado beijo de língua.
As
garotas andam igualmente em grupos e em passos lentos, facilitando a
aproximação dos rapazes.
A
“chegada” pode ser realizada por mais de um rapaz ao mesmo tempo, mas nunca direcionada
à mesma garota. Há o respeito pela escolha prévia, segundos antes de “chegar”
(ato de abordar a mulher, buscando conseguir uma ou mais beijos na boca).
Ao “chegar
na garota”, o rapaz tece elogios a garota. Diz que a estava observando e cria
uma situação oportuna ao beijo. Frente à recusa inicial, ele continua a
insistir. Ela continua andando enquanto ele insiste, algumas vezes obstruindo a
passagem da garota ou segurando-a pelo braço (minha esposa julgou esse gesto
bastante agressivo, embora o grupo tenha nos dito que as garotas nem sempre
pensam dessa forma). As demais garotas do grupo continuam caminhando no mesmo
ritmo, indo à frente. Essas aguardam metros à frente a fim de perguntar como
foi e se beijou o rapaz. Ela aceitando ou não beija-lo, conta a façanha às suas
colegas, em vantagem às demais por ter sido a escolhida dentre o grupo. Após
isso, caminha-se até o fim da rua e retorna para uma nova rodada do rito.
Em
alguns casos onde a garota se recusa beijar o rapaz, esta é xingada por ele.
Os desfechos possíveis:
Podem
ocorrer dois desfecho: i) o beijo encerrar o ritual ou; ii) o ritual se
prorrogar por mais alguns minutos ou horas.
O
certo é que findado o ritual, ambos fingem que nunca se viram ou se
encontraram.
Há vínculo amoroso?
O
ritual é um ato sem compromisso amoroso ou de fidelidade. Trata-se de um ato
despretensioso em relação a matrimônio ou relacionamento fixo. O rito caracteriza-se
pelo seu aspecto momentâneo e que se repete muitas vezes na mesma noite e entre
indivíduos diferentes.
O status
e consumo
A
bebida é um elemento de status social. Notei que alguns jovens carregavam nas
mãos garrafas de bebidas relativamente caras, como se tivessem carregando um troféu
ou algo que lhe desse destaque dentre os demais. Outros exibiam em punho uma
lata de cerveja. Notei que alguns jovens permanecerem com latas de cervejas
vazias por horas, simulando estarem cheias. Houve um momento que um dos rapazes
pegou uma lata no chão para simular que estava bebendo como os demais.
As
roupas e bonés de “marcas” (produtor de marcas conhecidas entre os jovens e
mais caras que as demais) parecem ter um papel igualmente importante em relação
ao status.
Dentre
as meninas, o status social em relação às amigas é atribuído a partir de dois
indicadores básicos: i) quantidade de garotos que chegaram nela durante a
noite; ii) beleza dos garotos que permitiu beijá-la. Garotas mais assediadas
por rapazes bonitos e bem arrumados teriam mais prestígios entre as colegas.
A conquista
A
conquista é o elementos de status social
mais importante do ritual da chegada, embora outras partes dos ritual também o
seja. O garoto que mais realiza o ritual (de chegar nas garotas, como dizem)
detém entre os amigos status de
“corajoso”, entretanto o que consegue beijar mais garotas o status de “pegador” (espécie de
conquistador de sucesso).
Os tímidos e os desinibidos
Claro
que existe rapazes mais tímidos que outros. Nesse caso, cabe ao desinibido a
tarefa de “chegar” para o colega. Ele se aproxima de um grupo de meninas e
pergunta se alguma delas estaria interessada em “ficar” com o colega tímido,
fazendo, assim, o papel de intermediador.
O ciclo
O
ritual se repete durante toda a noite. As garotas sobem e descem a rua passando
próxima aos grupos de rapazes a fim de que estes cheguem nelas. As garotas dotadas
de melhor aparência na avaliação dos rapazes são rapidamente abordadas e passam
pelo ritual por diversas vezes na noite, tendo essa condições de ser mais
seleta em suas escolhas.
Breves apontamentos interpretativos
O
rito da “Chegada” nos elucida três aspectos marcantes em nossa sociedade: o
machismo, a desejo pelo poder e o papel do consumo na definição do status social.
Rituais
como esse nos demonstram a faceta de nossa sociedade machista, onde a mulher é
tida como objeto a ser conquistado, de ser “tomada” como troféu. Embora as
mulheres tenham conquistado poder na sociedade brasileira, o rito da Chegada
evidencia a permanência de sua submissão ainda presente na atualidade. No rito,
cabe a mulher ser agente passiva. Ser possuía, ser “pegada” (como se referem os
rapazes ao conquistá-las). Embora a mulher tenha condições de recusar o beijo,
a insistência, às vezes agressiva  é
marca de nossa realidade. Igualmente notamos o machismo quando a garota se recusa
o beijo, sendo esta algumas vezes xingada pelo rapaz. Nota-se que a liberdade
da mulher em escolher é ainda, no rito, algo frágil. 
O
sentimento de dominação é bastante presente no rito; ora observável na busca
por conquistar a mulher, ora na ostentação de roupas e bonés de marcas mais caras.
A bebida, como inculca nossa mídia, é tida como símbolo de masculinidade e
poder entre os rapazes. 
A
prática de obstruir a trajetória das garotas, assim como segurá-las pelo braço
deixa-nos evidente que o macho se coloca em situação de dominador, enquanto que
caberia à fêmea ser dominada, ainda que podendo se escusar do pretendente.
As
roupas e bonés de marcas caras se manifestam como o desejo de incluir-se no
grupo e conquistar status social perante ele. O consumo é igualmente um
potencializador do respeito do outro, o que eles chamam de “moral”. Ter moral
com os amigos é destacar-se e isso é possível via consumo e dominação, não
muito diferente do restante dos grupos sociais ocidentais.
O
rito da “Chegada”, a princípio nos trás estranheza pelas características que
apresentam, mas sob uma perspectiva que busque familiaridades notaremos que sua
essência está presente em grande parte de nossos rituais ocidentalizados.
A
noite já dava lugar a madrugada e estávamos ainda ali, conversando com um dos grupos
observados. Esses nos apresentavam as conquistas como se fossem troféus. 
*Tal ritual merece um estudo mais atento e exaustivo. Nesse relato apresentei apenas as impressões que me foram possíveis de realizar a partir de uma observação de algumas horas e uma conversa com poucos indivíduos. Fica aí a sugestão de pesquisa.
Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Docente do Centro de Educação da Ufal.

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