O que faz as pessoas se enganarem: entendendo o conceito de viés da confirmação pela ótica da sociologia

O que faz as pessoas se enganarem: entendendo o conceito de viés da confirmação pela ótica da sociologia

Viés de confirmação: conexões de sociologia e filosofia

Por Roniel Sampaio Silva

Evidentemente o equívoco, engano e manipulação humana dispõem de complexas especificidades as quais não são possíveis abordá-las na totalidade neste texto. Todavia, abordaremos o conceito de viés de confirmação, fundamental para ajudar a compreender de forma pontual como as pessoas tendem a ser enganadas diante de evidências aparentemente óbvias. Neste texto explico como o viés de confirmação tende a nos direcionar para equívoco.

 

Conceito de viés de confirmação

Em termos gerais,”viés de confirmação” remete a ideia de que quando as evidências empíricas acabam se chocando com as crenças, valores e ideologias de uma pessoa ou grupo, o viés de confirmação invés de mudar posicionamentos, reafirma-os. Neste sentido, o viés de confirmação é uma estratégia social que garante posições a partir de uma visão de mundo que foi aprendida socialmente. O sujeito diante da consolidação das suas crenças, adquiridas pelo processo de socialização, tende a consolidar algumas certezas que julgam coerentes com sua identidade. Muitos desses indivíduos precisam blindar tais certezas para se confirmar como membro de uma coletividade.  Desta forma, o viés de confirmação acaba sendo não apenas uma consequência do estreito alinhamento social, mas também um mecanismo de defesa do sujeito e de seu ego.

Berger e Luckmann na Obra “A construção social da realidade” embora não tratem diretamente do conceito de “viés de confirmação” dão pistas de como se configura.  Para eles nossa percepção da realidade é construída mediante aos processos de socialização que nos reafirmam como membros de uma coletividade. Neste sentido, para muitos sujeitos os limites da sua realidade são os limites do seu grupo social. Isso justificaria por exemplo o fato de haver muitos adeptos do modelo explicativo da terra plana, embora essa teoria tenha uma defasagem milenar.  O fato de haver muitas pessoas que legitimam esta teoria, faz com que ela sobreviva não pela análise críticas das evidências caras a este objeto, mas pela legitimidade proporcional ao poder e alcance do grupo. Assim, a verdade sobre os fatos para muitos é pautada mais pela adesão social a uma ideia do que pelos mecanismos críticos, científicos ou racionais.

Exemplos

Cotidianamente o viés de confirmação dispõe de dispositivos que tendem muito mais a reafirmar crenças do que rever posicionamentos. Neste sentido, um único fato pode ser encarado de maneira diferente de acordo com a orientações ideológicas de cada grupo social.

Imagine duas pessoas, uma cujos posicionamentos são antagônicos. Uma tem defende que  o porte de arma deve ser o mais restritivo possível. Já a outra defende a ampliação e a livre circulação de armas.  Elas se deparam com a notícia de que uma pessoa que adquiriu arma legalmente promoveu o massacre.  Imediatamente e sem nenhum rigor as pessoas se posicionam. A pessoa de viés restricionista usa o fato para justificar ainda mais seus posicionamentos em relação à proibição. Já a pessoa que defende a ampliação do porte de armas vai argumentar que se outras pessoas estivessem armadas tal massacre seria impedido.

Quando os posicionamentos dos sujeitos tendem a não olhar o problema de maneira mais ampla, buscando avaliação científica dos fatos; a tendência é os posicionamentos serem colocadas tão somente de acordo com as crenças consolidadas pela socialização.  Diante da realidade cultural e política brasileira, quando os sujeitos não têm acesso a métodos de análises mais sofisticados, eles buscam avaliar os fatos a partir de suas crenças e do senso comum. Paradoxalmente, pessoas com esse perfil tendem a acusar intelectuais de tendenciosos quando estes se valem de mecanismos de analises mais sofisticados como contraponto.

morcego-rato-vies-confirmacao

Qual o “remédio” para o viés de confirmação?

Diante do exposto, compreender o conceito de viés de confirmação é fundamental para que possamos nos policiar diante dos equívocos ou preconceitos que as lentes da nossa socialização podem nos proporcionar. Ninguém está livre do viés de confirmação porque ele não é apenas um mecanismo social, mas também é uma estrutura cognitiva que na maior parte das vezes é imperceptível para os sujeitos que se vitimam dela. Quanto mais lemos e conhecemos métodos de analises diferentes, menos suscetível ficamos de cometer tais equívocos.

Sugestão de atividade

O debate entorno da construção social do conhecimento aproxima Sociologia e Filosofia, visto que tal conceito é interdisciplinar. Essa temática pode ser trabalhada em sala a partir do questionamento “como o viés de confirmação pode fomentar as “fakenews”. Tente juntar professor de sociologia e filosofia para promover uma aula conjunta sobre esse assunto, pedindo aos estudantes que exemplifiquem e analisem exemplos de viés de confirmação.

Mostre como a Ciência e a Filosofia conseguem analisar essas questões de maneira mais ampla de modo a usar metodologias e teorias para afastar as tendências ideológicas e crenças.

Referências

BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento; tradução de Floriano de Souza Fernandes. Petrópolis: Vozes, 1985.

Roniel Sampaio Silva

Mestre em Educação e Graduado em Ciências Sociais. Professor do Programa do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí – Campus Floriano. Dedica-se a pesquisas sobre condições de trabalho docente e desenvolve projetos relacionados ao desenvolvimento de tecnologias.

View more articles Subscribe
Leave a response comment5 Responses
  1. figueiredo
    fevereiro 12, 18:48 figueiredo

    Acho (minha impressão)que esse conceito”vies de confirmação” pode ter seu equivalente na psicologia como “Dissociação Cognitiva”
    Gostaria se pudessem comentar o que postei

    reply Reply this comment
    • Roniel Sampaio Silva
      fevereiro 17, 22:14 Roniel Sampaio Silva

      Oi Figueiredo, não conhecia esse conceito. São termos muito próximos sim. Digamos que um tem uma conotação mais psicológica e outro mais sociológica.

      reply Reply this comment
      • Figueiredo
        fevereiro 18, 17:23 Figueiredo

        Obrigado pelo comentario, Dr. Roniel. Não fiz nenhum curso de Sociologia, mas passei a ter interesse por ela a partir de um livro “Sociologia Geral” antigo de Rudolf Lenhard, e como “autodidata” caiu do ceu este blog de voces. Meus agradecimentos por essa bela iniciatic

        reply Reply this comment
  2. Figueiredo
    março 06, 08:11 Figueiredo

    Roniel, voce pode dizer se o livro que está sendo vendido”Sociologia Escolar:ensino, discussão e experiencia” eu poderia usar sem que isso desse confusão em minha cabeça. Tem um “cara” que ja disse”Muita informação é pior que informação nenhuma”

    reply Reply this comment
mode_editLeave a response

Your e-mail address will not be published. Also other data will not be shared with third person. Required fields marked as *

menu
menu
%d blogueiros gostam disto: