O que é Socialização? Texto + dica de leitura + atividades

O que é Socialização? Texto + dica de leitura + atividades
O QUE É SOCIALIZAÇÃO?

Por Henrique Fernandes Alves Neto*

Contextualizando

Existe uma piada que diz: “todo ser humano nasce pelado, careca e sem dente… tudo o que vem depois é lucro”. Por mais simples e inocente que seja essa especulação, ela revela um dos principais fenômenos que acompanham a vida humana: socialização. É por conta deste fenômeno que você consegue ler este texto, usar a internet, utilizar o celular, enviar mensagens no aplicativo de conversa, enfim, fazer tudo o que você é capaz de fazer hoje. Assim sendo, vamos conhecer quais são as abordagens e uma definição sociológica deste processo social.

Conceituando socialização

Socialização e sociologiaTodos nós, seres humanos, nascemos em uma realidade que foi criada por nossos semelhantes. Imagine você o que uma criança encontra quando nasce: linguagem, moedas, equipamentos tecnológicos, habitações, ferramentas e diversas outras formas de conhecimento humano acumulado; além disso, ela também descobre os elementos naturais, como plantas e diversos tipos de animais. Tudo isso existe, ainda fora deste novo ser humano. Como assim? Ora, este bebê deverá incorporar, aprender, se apropriar de tudo isso que lhe rodeia para daí, então, começar a participar mais ativamente da vida em sociedade. Este processo de aprendizagem, de ingresso, de início em uma vida social, é a chamada socialização.

Neste texto, iremos discutir a definição de dois autores fundamentais, dentro de uma abordagem culturalista e funcionalista: Peter Berger e Thomas Luckmann.

O que dizem…

Estes autores escreveram e publicaram um livro com o título “A construção social da realidade”, em 1966. Mais à frente, vamos explicar o motivo deste nome. Por ora, vale dizer o seguinte: Berger e Luckmann consideram que a realidade que está fora de nós precisa passar para dentro. Mas como? Através de um processo de interiorização. Olha só o que eles dizem:

No entanto, a interiorização, no sentido geral aqui empregado, está subjacente tanto à significação quanto às suas formas mais complexas. Dito de maneira mais precisa, a interiorização neste sentido geral constitui a base primeiramente da compreensão de nosso semelhantes e, em segundo lugar, da apreensão do mundo como realidade social dotada de sentido (BERGER; LUCKMANN, 1985; p. 174).

Um Processo social…

Os seres humanos participam de um processo social que permite com que nós, em um primeiro momento, possamos compreender nossos semelhantes, e, depois, perceber como tudo em nossa volta possui um sentido e significado. Quer um exemplo? Uma das primeiras palavras que os humanos pronunciam são “mama” ou “papa”, buscando identificar aqueles que cuidam dele(a) no início da vida. Uma vez que começam a “falar” mais, vão nomeando todas as coisas que perceber – através daquela pergunta “que é isso?” tão características de crianças pequenas: “au-au”, “binquedo”, “miau”, “mumu”, e assim por diante. Segundo Berger e Luckmann (1985), a interiorização coloca dentro de nós o mundo que está fora. Mas como isso acontece? Através do processo de socialização, viremos explicar mais à frente.

O conceito de socialização em movimento

Desde o início da Sociologia, lá no século XVIII, pesquisadores(as) desta área do conhecimento procuram entender como é fazer parte de um grupo social. Esta é uma das preocupações centrais da Sociologia, muito em virtude dos elementos que estruturam as explicações dela: indivíduo e sociedade. Cada intelectual que se dedique a refletir usando a Sociologia como base e orientação, deverá explicar como se dá a relação entre esses dois elementos que, ou estão em conflito, ou estão em harmonia, ou eles não existem de forma individual, ou eles não existem coletivamente, e diversas outras interpretações possíveis povoam as reflexões dos(as) sociólogos(as). Mas por que tocar neste assunto? Ora, dependendo da maneira que o pesquisador(as) entende a relação entre indivíduo e sociedade, diferente será a sua compreensão de como ocorrerá o processo de entrada de um na outra, ou vice-versa, a pressão que a sociedade incidirá sobre o indivíduo. Para mostrar essas diferentes vertentes, vamos fazer uma breve retomada do conceito de socialização.

Uma variedade…

Como são muitos autores(as) possíveis, foram selecionados apenas aqueles(as) de uma corrente teórica cultural, funcionalista e interacionista – seguindo as explicações realizadas por Medeiro (2002) e Setton (2005).

O primeiro desta lista é Émile Durkheim, o sociólogo conhecido por ser o “pai da sociologia” francesa. Durkheim (2011) busca compreender a socialização a partir da educação. Segundo ele, a educação constrói no ser humano um ser social, diferente do ser individual com o qual ele(a) nasceu. Para ele, a educação é um processo que tem como função criar em nós um certo conjunto de características físicas, intelectuais e morais (DURKHEIM, 2011) que possibilitem vivermos em sociedade. Nós só alcançaríamos o que temos de melhor se incorporássemos estas características impostas pela vida em sociedade.

Max Weber (2002), outro autor clássico, só que alemão, também refletiu sobre esse processo de participar da vida em sociedade, contudo, a partir de outra perspectiva. Para ele, os indivíduos compartilham certos valores e sentidos e, por isso, partilham de uma vida em sociedade. A vida social pode ser de dois tipos: comunitária, quando há um predomínio de ações sociais tradicionais e afetivas; e societária, quando há ações sociais racionais, principalmente com relação a fins. A depender do tipo de grupo social em que o indivíduo está inserido, será realizada a sua socialização para partilhar os valores que ali são mais importantes. Um exemplo deste fenômeno foi o florescimento do capitalismo em países que assumiam a religião protestante, de vertente calvinista, como oficial. Este processo Max Weber (2004) explicou na sua famosa obra A ética protestante e o espírito do capitalismo. Este desenvolvimento ocorreria, pois os valores protestantes incentivariam um tipo de trabalho que seria exigido pelo modo de produção capitalista.

Um contemporânea…

Avançando um pouco no tempo, temos o sociólogo Pierre Bourdieu (1975), também francês, que discutiu e pensou sobre o fenômeno do ingresso de um indivíduo na sociedade. O conceito-chave para ele é o de habitus que, em poucas palavras, pode ser entendida como a gramática social que um ser humano recebe da sua família, ou seja, são um conjunto de princípios explicativos, regras, padrões e modelos estéticos, éticos, morais, sociais, que um indivíduo adquire e assume como seu e pela participação em uma família específica. Segundo Bourdieu (1975), o habitus irá definir a nossa trajetória na sociedade, pois irá determinar do que gostamos, que forma pensamos, como participamos da vida em sociedade. Por fim, ele afirma que o habitus tem uma ligação direta com a classe social a que a família e o ser humano pertencem.

Enfim, veja que temos três ideias diferentes acima mencionadas. Cada uma é importante para entender como nós aprendemos a participar da sociedade. Contudo, é interessante ainda aprender mais uma definição. Voltaremos na discussão realizada por Berger e Luckmann (1985).

O conceito de socialização e seus usos

Se você voltar no tópico que apresentamos o conceito de Berger e Luckmann (1985), vai lembrar que terminamos ele dizendo que a interiorização acontece através do processo de socialização. Segundo os autores, a socialização acontece em duas etapas: a) socialização primária, que é a introdução do indivíduo no mundo objetivo de uma sociedade ou setor dela; b) socialização secundária, acontece quando um indivíduo já socializado que participa de outros setores do mundo objetivo dessa sociedade. Para ficar mais claro, iremos tratar de cada etapa separadamente.

Comecemos com a socialização primária.

Socialização primáriaTodos nós nascemos em uma estrutura social objetiva – que é a realidade, tudo o que nos rodeia. Nesta estrutura nós vamos conhecer aqueles outros significativos (outros indivíduos) que se encarregarão da nossa socialização. Ou seja: quando nascemos, já existe uma organização social específica e nossos pais serão os responsáveis por nos socializar. Nós não escolhemos os significativos – ou seja, não escolhemos os pais, e o que eles nos apresentam como definição de algo é a realidade objetiva que conhecemos, ou melhor, o mundo social objetivo. Nós não escolhemos nossos pais, e o que eles falam é o que acreditaremos ser o mundo – o único possível!

O mundo social objetivo é, portanto, apresentado a partir de dois filtros: a) a classe social que os pais ocupam na sociedade; b) as particularidades que cada família tem. São estes 2 filtros que moldam/controlam nossa experiência nesse mundo social. Por exemplo: uma criança de classe baixa percebe o mundo por essa posição e de acordo com o modo que os pais dela lhe apresentou. Mas a socialização primária não é só um processo cognitivo, é também emocional. É neste processo que criamos a nossa personalidade.

A personalidade é reflexo da tomada de atitude dos significativos (aqueles que apresentam o mundo) para com o indivíduo, e este se torna o que os outros fazem dele. Imagine uma família que não lê e quer que a criança seja leitora; ou uma família em que os pais torcem para um time em específico… há grande chance das crianças dessa família torcerem para o time dos pais. Forma-se assim uma identidade: identidade é absorver os papéis e atitudes dos outros significativos, como assumir o mundo deles. Você vive igual e com eles! Uma das características do mundo social apresentado na socialização primária, entendido como “mundo doméstico” é um “tudo está bem”, pois, este mundo é o único possível, não há divergências, não há escolhas, existe somente a palavra dos significativos, ou seja, os pais.

Vamos agora investigar a socialização secundária.

Se a socialização primária é o processo de absorver o mundo, a secundária é a interiorização de submundos! Como assim? Agora que o indivíduo já faz parte da sociedade, desta estrutura social objetiva, ele começará a conhecer mais deste mundo social. Em sociedades complexas, existem muitos elementos que não foram apresentados pelos significativos primários, portanto, é necessário que o indivíduo participe de outros processos de socialização, com outros significativos, para conhecer mais deste mundo social.

A socialização secundária é diferente da primária, pois desperta processos diferentes. A começar pela consciência que de o mundo que foi apresentado na socialização primária não é o único existente. Pode ocorrer uma crise, vergonha ou medo do conhecimento da amplitude do mundo social, muito maior do que aquela primeira apresentação. Para que o mundo da socialização secundária seja absorvido, por vezes, é necessário um grande choque para que o mundo da socialização primária seja destruído. Uma vez que a socialização primária soa como natural, a socialização secundária será artificial. Daí que se faz-se necessário um conjunto de técnicas pedagógicas para apresentar que o conhecimento e o submundo social apresentado também é: vívido, importante e interessante. Percebemos neste embate entre etapas da socialização que há uma distância entre: o eu total e sua realidade – criado pela socialização primária; o eu parcial e a realidade deste – criado pela socialização secundária.

Exemplificando…

Imagine a seguinte situação que pode ter acontecido com você: por algum motivo aleatório, você teve que mudar de escola. Aquela, na qual você tinha sido matriculado quando bebê ainda, e já estava avançando para o Ensino Médio, de repente, acabou para você. Agora, o seu Ensino Médio será em um ambiente totalmente novo, com pessoas novas, professores e professoras que você nunca viu. O que te espera são gírias, gostos, lugares, comportamentos, roupas, tudo novidade para você… e nada disso fazia parte do seu mundo social objetivo que tinha recebido daquela escola que você frequentou há tanto tempo. De uma hora para outra, um choque muito grande mostra que o mundo social objetivo pode ser muito mais amplo do que você poderia, sequer, imaginar! Dito em outras palavras, o que aconteceu aí foi um choque entre duas etapas da sua socialização: primária e secundária!

Para além de um conflito, que acredito ter ficado claro no exemplo acima e nas definições anteriores, a socialização é um processo contínuo. Berger e Luckmann (1985) afirmam que a socialização primária ocorre, principalmente, na família, enquanto a secundária, em qualquer espaço posterior a este. Mas isso não é a palavra final. Como vimos, vários pensadores tentaram explicar como a socialização acontece e se desdobra. Inclusive, há alguns mais recentes, que escreveram em um contexto mais próximo do nosso. Se quiser investigar, busque por François Dubet (1996) e Bernard Lahire (2002), estes são novos caminhos na reflexão sobre este tão importante fenômeno social, que nos molda, nos constrói, nos direciona e nos acompanha ao longo da nossa vida humana!

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Referências bibliográficas

BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade: tratado da sociologia do conhecimento. Petrópolis, RJ: Vozes, 1985.

BOURDIEU, P; PASSERON, J. C. A reprodução: elementos para uma teoria do ensino. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975.

DUBET, François. A sociologia da experiência. Lisboa: Instituto Piaget, 1996.

DURKHEIM, Émile. Educação e sociedade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

LAHIRE, Bernard. Homem plural: os determinantes da ação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

MEDEIRO, Marília Salles Falci. A construção teórica dos conceitos de socialização e identidade. Revista de Ciências Sociais, v. 33, n. 1, p. 78 – 86, 2002.

SETTON, Maria da Graça Jacintho. A particularidade do processo de socialização contemporâneo. Tempo social, v. 17, n. 2, p. 335-350, nov. 2005.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

WEBER, Max. Conceito básicos de sociologia. São Paulo: Centauro, 2002.

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Dicas de leitura

A ilha – Aldous Huxley. Este livro conta a história de uma jornalista que vai visitar uma ilha, chamada Pala, que tem um estilo de vida totalmente diferente do continente. O romance é interessante, pois ele conta com vários momentos de explicações de como a socialização acontece na sociedade de Pala.

Harry Potter – J. K. Rowling. Para aqueles que não conhece essa série de 7 livros, é a história de um bruxo que foi escolhido, aos 11 anos, para estudar na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Você irá encontrar em vários momentos dos livros o processo de socialização acontecendo.

Punk Rock Jesus – Sean Murphy. Você já imaginou como seria a vida de Jesus se ele chegasse no mundo de hoje? Então, esta é uma HQ que tenta pensar neste fato impressionante. Não posso contar mais nenhum detalhe, contudo, a estória é sensacional e, além disso, uma aula de socialização também!

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Dica de atividade pedagógica

Vamos construir uma tabela para verificar a sua socialização. Para isso, pegue uma folha de papel e coloque, no topo dessa tabela, cada uma em sua coluna, as seguintes expressões: sei/gosto/faço; quem ou onde aprendi; socialização. Na coluna com a primeira expressão (sei/gosto/faço), você vai listar abaixo 5 músicas/bandas que você gosta; 5 comidas que você gosta; o time de futebol/basquete/vôlei e afins que você torce/ou não torce; 5 séries que você gosta – pode ser filme também. Feito isso, do lado de cada item que você escreveu, preencha a coluna do lado (quem ou onde aprendi) com a informação sobre com quem você aprendeu tal coisa, ou onde você aprendeu tal coisa. Por último, ao lado de cada item destes e na última coluna, preencha com SP (socialização primária) ou SC (socialização secundária). Feito isso, você terá uma pequena amostra de como aconteceu o seu processo de socialização.

 

Notas

* Mestre em Ciências Sociais; professor do IFPR; E-mail: [email protected]

 

 

Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Docente do Centro de Educação da Ufal.

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  1. Guilherme Heerdt Vandresen
    agosto 06, 15:20 Guilherme Heerdt Vandresen

    Excelente texto, muito didático!

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