A importância do capital cultural: contribuição de Pierre Bourdieu

A importância do capital cultural: contribuição de Pierre Bourdieu

Por Cristiano das Neves Bodart

Capital Cultural

O conceito de Capital Cultura foi cunhado por Pierre Bourdieu em seus estudos de reprodução social e o lugar da escola nesse processo. Convencido de que o capital econômico não era o único tipo de capital mobilizado pelos sujeitos para reproduzir privilégios e distinção social, Bourdieu apostou na ideia de que a cultura é um bem simbólico que quanto mais se tem, maior as condições de sua acumulação.

Observando o desempenho das crianças em idade escolar Bourdieu notou que o estoque de capital cultural delas era diferente de acordo com a classe social originária. Considerando o capital cultural um “arbitrário cultural”, notou que crianças que chegavam à escola com capital cultural valorizado no interior da escola eram melhor recompensadas pelos professores, assim como possuíam melhores condições de absorver o que estava sendo ensinado; haja visto que não se tratava de algo estranho a suas vidas cotidianas. Já as crianças originárias das classes populares, além de não apresentar “docialidade”, não enxergavam os conteúdos escolares como algo atrativo, isso por estar distante de suas realidades cotidianas. Eu outros termos, alguns crianças possuíam uma predisposição a aprender e outras não. O capital cultural que dispunham previamente era, para Bourdieu, um elemento importante nessa predisposição e, consequentemente, no sucesso ou insucesso dos alunos.

Capital cultural, nas palavras de Bourdieu, pode ser assim definido:

[…] conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de interreconhecimento ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, como conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns (passíveis de serem percebidas pelo observador, pelos outros ou por eles mesmos), mas também são unidos por ligações permanentes e úteis (BOURDIEU, 1998, p. 28).

É importante destacar que para Bourdieu o capital cultura pode existir sob três formas. São elas: 

[…] no estado incorporado, ou seja, sob a forma de disposições duráveis do organismo; no estado objetivado, sob a forma de bens culturais – quadros, livros, dicionários, instrumentos, máquinas, que constituem indícios ou a realização de teorias ou de críticas dessas teorias, de problemáticas, etc.; e, enfim, no estado institucionalizado, forma de objetivação que é preciso colocar à parte porque, como se observa em relação aocertificado escolar, ela confere ao capital cultural – de que são, supostamente, a garantia – propriedades inteiramente originais (BOURDIEU, 1979, p.02).

Bourdieu colocou em xeque a visão predominante que atribuía à escola o papel central na construção de uma nova sociedade, justa, moderna, aberta e democrática. Bourdieu evidenciou que a escola, na verdade, reproduzia as desigualdades sociais. Assim, a partir das contribuições de Bourdieu, o otimismo marcante do período anterior foi substituído por uma postura de cunho mais pessimista; ao menos no modelo de escola que estava posto na França.

Nas palavras de Pierre Bourdieu:

Não há dúvida de que os julgamentos que pretendem aplicar-se a pessoas em seu todo levam em conta não somente a aparência física propriamente dita, que é sempre socialmente marcada (através de índices como corpulência, cor, forma do rosto), mas também o corpo socialmente tratado (com a roupa, os adereços, a cosmética e, principalmente, as maneiras e a conduta) (1998, p. 193).

Assim, a família tem um papel importante na transmissão do capital cultural e, consequentemente, no sucesso ou insucesso profissional dos filhos. Assim, o capital cultural passa a ter importância na definição da estratificação social, seja por meio do sucesso escolar ou profissional, seja por meio do matrimônio, uma vez que grupos sociais tendem a se relacionar entre os que são dotados do mesmo volume de estoque de capital cultural, e quase sempre a posse desse capital está ligado a outros tipos de bens simbólicos, tais como o capital social e econômico.

 

Referência

BOURDIEU, Pierre. Les trois états du capital culturel. Actes de la recherche en sciences sociales, Paris, n. 30, nov. p. 3-6, 1979.

BOURDIEU, Pierre. Escritos de educação. Petrópolis: Vozes, 1998.

Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Docente do Centro de Educação da Ufal.

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