Entrevista com Anthony Giddens: Europa e América Latina

Entrevista com Anthony Giddens: Europa e América Latina
Entrevista realizada por Marina Artza, publicado no site Clarin- Revista de Cultura 
Traduzido por Cristiano Bodart
 

– Como se pode pensar a Europa em relação a outro continente como a América Latina?

– Há mudanças estruturais na sociedade que estão afetando todo o mundo. Isto inclui América do Sul e países europeus. A estrutura econômica do mundo será diferente nos próximos vinte anos, muito diferente de como foi nos últimos vinte anos. Tivemos esse avanço massivo de novas tecnologias de Internet que afetam a todos e em todos os lugares. Na América Latina, você vê as marchas nas ruas e o mesmo ocorre na Europa. Temos que ver também para onde irá economia global. O Brasil estava indo bem, mas agora nem tanto; o México estava indo bem, porém não agora; o mesmo para Argentina … E isso não é parte da situação intrínseca na América Latina, senão a situação global. Creio que devemos tomar sérias decisões, por exemplo, onde eles estão vindo os postos de empregos: precisamos empregar muito mais gente do que antes, usando não só os jovens, mas também os mais velhos, porque nenhum país da Europa pode manter os mais idosos como costumava fazer antes. Por tanto, a América Latina e a Europa partilham uma série de problemas.

-Mesmo em crise, a Europa pode ser um modelo para a América Latina?

– Não creio que a Europa pode ser um modelo para a América Latina porque a União Europeia tem um rol específico por conta da presença do Euro. Vocês não vão ter uma moeda comum, o que será sempre uma situação diferente. Eu sou a favor de uma maior ligação entre a Europa e a América Latina. Particularmente na Grã-Bretanha, a ligação com os países latino-americanos é muito pobre. Especialmente porque o Império Britânico não estava na América Latina. A atividade imperialista britânico estava em outros lugares.

– É interessante, porque na América do Sul após a Segunda Guerra Mundial, viu a Europa como o continente onde as coisas funcionavam. Mas agora a Europa reproduz modelos e soluções para lidar com a falta de um bem-estar como a Argentina fez depois de 2001.

-A gente olha para a Europa diferente, porque a Europa tem grandes problemas hoje. Crieo que a América Latina precisa de sistemas de welfare, que deve construir esses sistemas, tem que ver como as gerações mais jovens se relacionam com os mais velhos. Eu acho que algumas coisas do sistema de bem-estar europeu ainda são relevantes na América Latina, com limitações. Alguns países pedem emprestado para financiar os sistemas de bem-estar que não pode cumprir. Acho que devemos procurar novos modelos integrados com o desenvolvimento econômico. Temos de repensar o sistema de bem-estar para redistribuir os lucros antes que gerem as ganâncias, e não depois.

-Você foi um dos primeiros a usar o termo “globalização”. O que mais lhe surpreende hoje dos alcances que esse termo teve?

-Muita gente só identifica a globalização com a globalização econômica. Para mim, é a globalização mais importante é a que ocorre em termos de comunicação. Nunca vislumbrei, e nem poderia ter imaginado, algo como Internet. É incrível. Alguém pode estar vendo o que estamos fazendo aqui a partir de qualquer lugar do mundo. Pode ser o serviço de inteligência de os EUA ou pode ser qualquer um. Este é um mundo completamente diferente. Devemos exercitar e trabalhar sobre as consequências desta. É benéfico o avanço tecnológico, mas também assustador. Sobre esta mistura de medo e progresso deve trabalhar. Sobre os novos riscos e novas oportunidades. E nós não sabemos como vai ser. É um mundo assombroso. É um momento de grande confusão por conta das grandes mudanças, e a vez de grandes riscos e grandes oportunidades. Há avanços científicos incríveis na ciência do cérebro, por exemplo, mas também há doenças que não podem ser curadas. Enquanto eu dou uma palestra, alguém olhar ou responder a seu telefone celular seria considerado antiético, há três anos. Não hoje. -Ainda é uma falta de respeito … Porém as máquinas entraram em nossa personalidade. Não vai demorar muito para que você passe a saber quem está conectado, se você ou um avatar, ou uma projeção. Imagine como isso é terrível. É como se a ficção científica tinha sido tomado pela realidade. É imponderável. Já não pode usar o passado como um guia para o futuro.

Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Docente do Centro de Educação da Ufal.

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