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Dicas imperdíveis de filmes (e com apoio analítico) para aulas de Sociologia


O Blog Café com Sociologia trás dicas imperdíveis de filmes (e com apoio analítico) para aulas de Sociologia.



Trata-se de indicações de filmes e de análises dos mesmos publicadas na Revista Café com Sociologia*.



Dica 1 - Muito Além do Cidadão Kane


Análise sociológica do Filme:
Ética Planetária e Complexidade num olhar sobre o documentário: “Muito Além do Cidadão Kane” (Veja aqui)
Autor: Sydneia de Oliveira Brito


Dica 2 - Closer – Perto demais


Análise sociológica do Filme:
Closer – perto demais:o amor na pós-modernidade  (veja aqui)
Autora: Lane Reis Santos

Dica 3 - Cidadão Boilensen

 
Análise sociológica do Filme:
A Verdade Sobre o Cidadão Boilensen (Veja aqui)
Autor: Nildo Viana


Dica 4 - Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, O Capital.


Análise sociológica do Filme:
A saga de Marx (Veja aqui)
Autor: Júlio Cesar Bastoni da Silva


Dica 5 - Estamira


Análise sociológica do Filme:
Estamira - (quase) dez anos depois (Veja aqui)
Autor: Igor Costa Pereira de Souza


Dica 6 - O Cheiro do Ralo



Análise sociológica do Filme:

Coisas do homem e homem das coisas: o cheiro que vem do ralo é de Lourenço (Veja aqui)
Autor: João Gabriel da Fonseca Mateus





*Embora a revista seja homônima a esse blog, trata-se de um periódico acadêmico independente deste espaço.

Vencedor do livro "Conversas com um jovem professor

Fotografia gentilmente cedida e autorizada para divulgação. Acervo pessoal.

Lógica, Dilma, impeachment, Temer e afins (ou não)...



“Pedala Robinho”
Por Felipe Onisto[1]


Nos princípios básicos da escola primária a ciência da lógica nos propiciou o conhecimento racional. No modelo matemático/filosófico os resultados são os mesmos quando seguem a coerência dedutiva. Na tabuada não há como relativizar os derivados. As quatro operações basilares apresentarão os mesmos finais quando os números se repetirem. Ao misturar as cores primárias na mesma proporção, necessariamente, obteremos as secundárias. Amarelo anexado ao vermelho propiciará laranja. Assim, como azul e amarelo o verde. Tão logo, vermelho e azul a tonalidade será violeta. Pau que bate em Chico bate em Francisco. Todo humano é mortal. Aristóteles é humano. Logo, Aristóteles é mortal.

Qualquer criança/adolescente que frequente a escola/universidade escuta essas métricas. Entretanto, as conexões não se repetem na política, mídia e judiciário. Há dois pesos e duas medidas escolhidos conforme o freguês. A admissibilidade do impeachment da presidente Dilma Rousseff foi votado na câmara federal em um domingo (17/04/16), contrário ao de Fernando Collor, realizado na terça-feira (29/09/92). Como justificativa do impedimento de Rousseff pesam as denominadas pedaladas fiscais e assinaturas de decretos suplementares, também firmadas pelo presidente interino Michel Temer. O processo de Rousseff foi acatado pelo então presidente da Câmara dos deputados – Eduardo Cunha, destarte, o mesmo pedido com as mesmas alegações contra Temer, arquivou. 

O relator do texto de admissibilidade no Senado foi Antonio Anastasia, quando governador de Minas Gerais pedalou mais que Everson de Assis Camilo, ciclista campeão brasileiro em 2015. Se pedalada fiscal, assim como afirmam Janaina Paschoal, Hélio Bicudo e Miguel Reale constituir crime de responsabilidade, devemos ter mais 17 pedidos de impeachment de governadores, isso também recai nas práticas de Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. Ocorreram às condenações e remissões antes dos movimentos de acusação e defesa, posicionamentos sem conhecer a totalidade dos fatos. É o mesmo que o juiz sentenciar sem ouvir o promotor e advogado de amparo. Dilma estava condenada desde 02/12/15, a posteriori foi espetáculo. Pela coerência, resta o show da maledicência de Temer.

Lula foi impedido por uma liminar do ministro Gilmar Mendes de assumir o ministério da Casa Civil com alegação que poderia interferir na Operação Lava Jato. Essa condição não se aplicou a nenhum dos ministros investigados e empossados por Temer, muito menos aos em exercício no governo Dilma. Investigado pela PGR – Procuradoria Geral da República – Eduardo Cunha assistiu seu pedido de anistia pelo deputado federal – Paulinho da Força Sindical. Na contramão, Delcídio do Amaral foi cassado pelo Senado. O juiz federal, Sergio Moro, pediu paz no país após aprovação da admissibilidade do impeachment no Senado, é o mesmo que jogar gasolina na fogueira e tentar apagar com álcool. Diz o provérbio. Faça o que digo, não faça o que faço.

O modelo político brasileiro é representativo, porém, Temer faltou nas aulas de lógica. Não há mulheres nos cargos do primeiro escalão, muito menos negros ou representes de movimentos sociais. Há que concordarmos quando alega que os votos de Dilma são seus, obviamente indissociáveis, visto que, apresentaram uma proposta de país nas eleições de 2014. Claro que isso o força a continuar o paradigma sugerido, entretanto, a amnésia não permite consubstancialidade. Na sequência irracional dos afazeres trouxe a oposição deslegitimada pelo voto popular em 2014 para o governo (PSDB e DEM). Na fala de alguns deputados que votaram pelo impeachment, alertavam que Dilma deveria sair pela insatisfação popular (61% - Vox Populi), outrossim, Temer está no mesmo patamar (58%). Não há a mesma celeridade nos processos, afinal, ouvimos a mídia falar no impeachment do Temer?

Novamente a lógica, Dilma foi afastada pelos supostos crimes de responsabilidade fiscal. Ouvimos do comum e da Janaina Paschoal que sobram crimes no governo. Sabemos que Temer se enquadra nos arquétipos com as mesmas acusações. Vide a pegadinha do senador Randofe Rodrigues que forçou a confissão da advogada no enquadramento do presidente interino do país. Contudo, pode ser absolvido no congresso pelos mesmos atos. Será o mesmo que analisar dois processos idênticos e anistiar um. Pau que bate em Chico não bate em Franscisco. Se isso acontecer nos próximos dias, meses ou anos, será evidente, límpido, notório, transparente, cristalino, puro, diáfano, translúcido, nítido, assim, como esses adjetivos são sinônimos, que o impeachment de Dilma Rousseff foi um golpe. 

Confusão essa, será que 2 mais 2 ainda são 4? Azul misturado com amarelo ainda resulta em verde? Com tanta falta de lógica, essas perguntas se tornam centrais novamente. Para fechar o raciocínio, pesquisa do Vox Populi demonstrou que 56% das pessoas que assistiram a transmissão do impeachment na câmara dos deputados federais, julgaram como negativos os pronunciamentos, 37% consideraram os comportamentos péssimos e 19% ruim, em um país onde a política é personalista, logo, o congresso é a cara do Brasil. Não podemos nos assusta com o mesmo do que praticamos cotidianamente. 


[1] Sociólogo e mestrando pelo Programa de Mestrado em Desenvolvimento Regional da UnC – Canoinhas/SC.


Como citar esse texto:
ONISTO, Felipe. “Pedala Robinho”. Blog Café com Sociologia. 2016. Disponível: . Acesso: dia, mês, ano.

Você já pensou em usar podcast para ensinar sociologia? Veja essa experiência vencedora!


Você já pensou em usar podcast para ensinar sociologia? Veja essa experiência vencedora do prêmio Professores do Brasil de 2014! 

É muito comum o professor se deparar com a dificuldade de transmitir o que aprendeu na universidade aos seus alunos, sobretudo do Ensino Básico. Os editores do “Blog Café com Sociologia” publicaram um artigo em formato de relato de experiência docente onde contam como se utilizaram de uma ferramenta tecnológica para realizar a aproximação entre o conhecimento sociológico e os alunos, assim como do professor. 
O texto foi publicado na Revista Educação, Ciência e Cultura. 
Segue o resumo do mesmo. No fim da postagem encontrará o link para o texto completo.



O uso do Podcast como recurso didático de Sociologia: aproximando habitus

Roniel Sampaio Silva 
Cristiano das Neves Bodart

Resumo

Esse paper caracteriza-se como um relato de experiência docente, tratando-se de uma descrição de prática pedagógica cujo objetivo foi aproximar os habitus dos educandos e do docente a fim de promover um ensino-aprendizado mais significativo. A prática apresentada foi, em 2013, vencedora do Prêmio Professores do Brasil na categoria “Educação Digital articulada ao desenvolvimento do currículo”. Busca-se descrever como se deu o planejamento e execução de uma proposta de uso de podcast em aulas de Sociologia, a qual fundamentou-se sob uma perspectiva teórica da Sociologia Culturalista, sobretudo a partir das colaborações de Pierre Bourdieu. Tal prática apresentou resultados satisfatórios, destacando que o podcast pode vir a ser uma ferramenta de aproximação de habitus.

Palavras-chave: Ensino-Aprendizagem; Podcast; Sociologia; Habitus.

Link para o texto completo: AQUI


Quando a sociologia se encontra com a redação no Ensino Médio



Por Roniel Sampaio Silva

Escrever é um ato que envolve afinco, criatividade e raciocínio. Eu particularmente gosto de exercitar a escrita para consolidar minhas leituras e para organizar o que penso. Não seria bacana que nossos alunos tivessem esse hábito? Com um país de dedicados leitores e escritores fica mais fácil sonhar com um futuro melhor.  Divagando sobre esse sonho me indago: como eu, professor, posso usar a sociologia para isso? 

Leitura e escrita é a base da escolarização e sem o fortalecimento dessas o trabalho dos professores fica comprometido. Muitos docentes alegam que problemas de leitura e escrita são responsabilidade tão somente dos professores de língua portuguesa. Embora os docentes da língua vernácula tenham mais tempo para trabalhar a escrita e a leitura não significa que isso possa ser ensinado em todas as matérias do currículo. Cabe aos professores de língua portuguesa dar uma visão aprofundada sobre as regras da língua culta, bem como de apresentar recursos estilísticos para compreensão de texto, entre outras coisas mais. Ainda assim, cabe a todos os professores fortalecer a relação com a escrita e leitura. 


Pensando na responsabilidade que todos temos para melhorar a leitura do mundo por parte dos nossos alunos, pensei em usar uma "isca" para os alunos se interessarem mais por sociologia. Uma das estratégias é usar a redação para ensinar melhor sociologia. Como? Analisando os textos dissertativos, bem como suas respectivas argumentações.  

Como anteriormente dito, os professores de língua portuguesa trabalham produção de texto e dão ênfase na estrutura, linguagem, coerência e coesão. Todavia, isso não é o suficiente para uma boa redação, sendo necessário ter boas referências, argumentos e construção/organização de pensamento. É no quesito "refinamento da argumentação" que a sociologia pode contribuir bastante. 

Quais seriam os procedimentos pra aliar produção textual e Sociologia?

1- Converse com o professor de língua portuguesa e proponha uma avaliação dupla. Uma redação com um tema sociológico no qual cada professor avalie o que foi dado na sua disciplina.

2- Selecione textos motivadores e elabore uma "apostila" ou "portifólio" com os alunos que quiserem treinar a escrita. Sugerimos alguns textos motivadores do site descomplica (acesse aqui). Estimule que seus alunos escrevam pelo menos um texto semanal. 

3- Veja os critérios de avaliação das redações do ENEM  e busque orientar os alunos para melhorar seus textos. Ajude-os a elaborar mapas mentais, plano de redação e estruturação lógica das ideias com base nas lições da sociologia. 

4- Na correção de cada redação avalie a argumentação e aponte contribuições sociológicas para melhoria do texto. 

Conquista: agora Sociologia e Filosofia terão 2 aulas semanais no estado do Rio de Janeiro


Conquista: agora Sociologia e Filosofia terão 2 aulas semanais no estado do Rio de Janeiro
Por Cristiano das Neves Bodart

Após muita luta, no Rio de Janeiro a Sociologia e Filosofia passarão a ter 2 aulas semanais em cada uma das séries do Ensino Médio, totalizando 240h no currículo. A resolução dispõe sobre a grade curricular de 2017.

A RESOLUÇÃO SEEDUC nº 5440 de 10 de maio de 2016, foi publicada em 11 de maio de 2016 no Diário Oficial do Estado.


Segue a resolução:



Secretaria de Estado de Educação 
ATO DO SECRETÁRIO 

RESOLUÇÃO SEEDUC Nº 5440 DE 10 DE MAIO DE 2016 DISPÕE SOBRE O ANEXO II DA RESOLUÇÃO SEEDUC Nº 5.330/2015, E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS. 
O SECRETÁRIO DE ESTADO DE EDUCAÇÃO, no uso de suas atribuições legais, e tendo em vista o que consta no processo nº E- 03/001/5888/2015, 
RESOLVE:

Art. 1º - A Matriz Curricular prevista no Anexo II da Resolução SEEDUC nº 5.330, de 16 de setembro de 2015, referente ao Ensino Médio - Parcial - Diurno e Noturno, alcançará terminalidade em 31/12/2016. 
Art. 2º - Na fixação das diretrizes para implantação da Matriz Curricular referente ao Ensino Médio - Parcial - Diurno e Noturno, a partir do ano letivo de 2017, será observado o disposto no Anexo Único desta Resolução. 
Art. 3º - Esta Resolução entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário. 

Rio de Janeiro, 10 de maio de 2016 

ANTONIO JOSÉ VIEIRA DE PAIVA NETO
Secretário de Estado de Educação

Link para o Diário Oficial: AQUI

Assim ficará a matriz curricular da rede pública de Ensino Médio do estado do Rio de Janeiro a partir do próximo ano letivo:



Os impactos dessa mudança serão bastante benéficas para o ensino de Humanas e não apenas para as duas disciplinas que tiveram suas aulas ampliadas, uma vez que o aluno terá acesso a um repertório maior de conceitos e teorias para compreender a realidade social, o que o ajudará nas aulas, por exemplo, de História e Geografia.

Outro impacto se dará na qualidade de trabalho dos professores de Sociologia e Filosofia que tendo menos turmas terão melhores condições de preparar suas aulas, isso por conta da redução do sobrepeso causado pelo excesso de turmas.







A ciência também pode ser usada para naturalizar as desigualdades sociais. Saiba como.




Teoria da Curva do Sino e a naturalização das desigualdades sociais

Por Cristiano das Neves Bodart

Você já ouviu falar da “Teoria da Curva do Sino”? Tal teoria defende, grosso modo, que negros e brancos têm QIs diferentes. Aponta que judeus têm, em média, um Quoficiente de Inteligência (QI) maior em relação as demais “raças”.  Afirma ainda que o QI dos brancos seria, em média, maior que dos negros. A teoria foi apresentada por James Watson e posteriormente (em 1994) por Charles Murray e Richard Herrnstein na obra "The Bell Curve" (A Curva do Sino, Free Press, 1994). Em 2007, a Folha de São Paulo fez uma

Recontextualização didática: agência x estrutura



Recontextualização didática: agência x estrutura 
Por Cristiano das Neves Bodart
A música pode vir a ser utilizada nas aulas de Sociologia de forma bem produtiva e de diversas maneiras (Veja aqui um artigo de como analisar letras de músicas nas aula de sociologia). Uma delas é sua utilização como introdução de um conteúdo ou um conceito sociológico, bem como uma perspectiva teórica. 

Nessa postagem dou um exemplo bastante útil para introduzir a tradicional questão sociológica: agência x estrutura. Em síntese, a proposta é realizar uma recontextualização didática* dessa discussão a fim de torna-la mais próxima dos educandos. 

Passamos assim para a sugestão prática para uma aula com turmas iniciantes na disciplina de Sociologia, seja no Ensino Básico ou Superior: 

PRIMEIRO MOMENTO: 

O professor traz a frase: “O sucesso depende só de você!” e pergunta aos educandos se concordam ou descordam dela. 

SEGUNDO MOMENTO: 

Feito isso, explica à turma o conceito de agência e de estrutura. 

TERCEIRO MOMENTO: 

Passar para os alunos a música “Não vou me adaptar” de Nando Reis. É importante o acesso dos alunos à letra da música. 

QUARTO MOMENTO: 

Perguntar aos alunos se é possível não nos adaptarmos, como indica a música. A partir desse momento, dialogue com os alunos a partir das contribuições de autores que defenderam a predominância da estrutura sobre as escolhas dos indivíduos (K. MARX), assim como aqueles que evidenciaram a predominância da agência (M. WEBER e E. GOFFMAN) e dos que trabalharam com a coexistência de ambas, ainda que reconhecendo a força da estrutura (N. ELIAS e P. BOURDIEU). 



Segue a letra da música: 

Música: Não Vou Me Adaptar 
Cantor: Nando Reis 



Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia 
Eu não encho mais a casa de alegria 
Os anos se passaram enquanto eu dormia 
E quem eu queria bem me esquecia 

Será que eu falei o que ninguém ouvia? 
Será que eu escutei o que ninguém dizia? 
Eu não vou me adaptar, me adaptar 
Eu não vou me adaptar, me adaptar 
Eu não vou me adaptar, me adaptar 

Eu não tenho mais a cara que eu tinha 
No espelho essa cara já não é minha 
É que quando eu me toquei achei tão estranho 
A minha barba estava deste tamanho 

Será que eu falei o que ninguém ouvia? 
Será que eu escutei o que ninguém dizia? 
Eu não vou me adaptar, me adaptar 
Não vou me adaptar! 
Me adaptar! 

Repetir a música

Vídeo:







* Alguns preferem usar o conceito de "transposição didática".





POLÍTICA BRASILEIRA: O ATIVISMO JUDICIÁRIO E MIDIÁTICO



POLÍTICA BRASILEIRA: O ATIVISMO JUDICIÁRIO E MIDIÁTICO
   por Felipe Onisto [1]
        
            Inúmeras condições permitem o indelével, primeiro o caos econômico. A crise carrega em sua imanência a baixa estima da população, dispositivo que facilita a perpetuação do Messias, agente tão esperado pelo povo nesse momento, seguramente sua fala aponta os culpados, logo, devem ser perseguidos e punidos, afinal, legitimado por algo, alguém ou pelo povo, necessita violentar para restabelecer a ordem. Encarado como superior e inquestionável, não restam questionamentos, eles são os delatados, na altivez social cumpre o etnocentrismo.

            Segundo, as mídias, propagandas e seletividade são essenciais para difundirem as ideias, sem elas não seria possível atingir a massa populacional e conseguir base (leram Paul Joseph Goebbels), isso implica no terceiro sintoma: ódio/amor. Expresso nas propostas jornalísticas, textos, charges, pinturas, editoriais... engrandecem, fragilizam ou violentam simbolicamente, como não há contraditório permissivo para reflexão, vislumbram-se as repetições, compartilhamentos e encaminhamentos. Isso é possível em sociedades onde governo, instituições ou oligopólios controlam a impressa e desejam defender vossos interesses. Aqui jaz a ética de Hegel (1997).

            Quarto, perseguição, condução coercitiva, caça as bruxas, aos comunistas, socialistas, judeus, negros, homossexuais, índios, políticos, torcedores da gaviões da fiel, ideólogos, não religiosos, deficientes... Encaminhados à condição de Homo Sacer (2004), visualizam a casta do sacrifício sob a figura conhecida do algoz. Aprisionados pela judicialização da vida, sociedade do espetáculo, sobretudo a ECONOMIA, tem na biopolítica a métrica que delibera sobre os corpos viventes (RUIZ, 2013), úteis ou não. No critério de seleção, vislumbram-se duas posições, DIREITA (ONISTO, 2015), os que de algum modo fintaram Górgona, venceram pelo darwinismo econômico e social e qualificaram a vida no modelo ocidental moderno do trabalho. Antinômicos são os da ESQUERDA, acusados de frágeis, descontextualizados, desumanos, corruptos, moralista, são incapazes de ocupar o espaço da meritocracia, liminar para abandonar ou violentar simbolicamente.

            Quinto, destruição de símbolos, iconoclastia, ocupação de espaços políticos com força policial, estrago de sedes, censura, paralaxe da noite dos cristais. Sexto, esvaziamento dos espaços de debates, boicote, abafamento, panelaço, buzinaço, expressão da ascendência do bando em presságio inusitado. Sétimo, participação de intelectuais, não sejamos ingênuos em pensar que essas estratégias são espelhos da massa, um golpe só é possível pela racionalidade, cautela, contabilidade, lógica, poder econômico, privilégios, certamente entrarão para história e ficarão conhecidos como os maiores estadistas ou piores. Há capacidade para planejar mil anos de governo.

            Dentre inúmeras outras características, a cereja do bolo, Estado de Exceção (2004). O nome é sugestivo, trata-se de dispositivo constitucional que pode ser evocado conforme o regimento positivado. Sua função é a suspensão da Constituição para manutenção da própria ordem constitucional, isso legitima ainda mais o uso da força e a queda do Estado de direitos quando proclamado pelo Soberano. Tão logo, não há juspositivismo que assegure a perpetuação das cláusulas constitucionais. De maneira geral, esse é o métier, destarte, não implica que seja parcial ou por categorias, nem mesmo que grupos e/ou pessoas usem suas práticas para cometerem definidos atos. Giorgio Agamben chama atenção para banalização do uso ao levar em conta que a modernidade tornou a exceção em regra.

            Theodor Adorno (1995) aponta que esses fenômenos são possíveis em sociedades destituídas de consciência, outrossim, os verdadeiros culpados são os que conscientemente permitem a barbárie. Slavoz Žižek (1996) alerta para a inversão do clássico conceito de ideologia de Marx: “Eles fazem, mas, não sabem o que fazem”, para, “Eles sabem o que fazem e continuam fazendo”. Seguramente deveria ser dura a vida na Alemanha entre 1933 e 1945, assim, como nos tempos da Ditadura Militar do Brasil, do Chile, da Argentina, isso porque não está em jogo a Idade Média, inquisição. Quando apontado o indelével, não é o retrato do nazismo, mas, uma das possíveis formas de ler a realidade do país atualmente. Karl Marx apontou: “a história se repete, primeiro como tragédia depois como farsa” (2011).

            Diante da dialética de Hegel (1993), é como se os favoráveis que clamam pelo fim da corrupção e impeachment/renúncia da presidente Dilma Rousseff fossem à tese e os juristas e movimentos sociais que defendem o governo e Estado de direitos fossem a antítese (antinomia também é verdadeira). A guerra está anunciada, o problema será menor se ficar no debate, por mais que esse seja extremamente DESQUALIFICADO, sexista, patriarcal, corporativo. Que venha a síntese.

Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS (ŽIŽEK, 2011).

            Elaborado o primeiro diagnóstico, é salutar apontar os fundamentos de Agamben para compreensão do paradigma político ocidental contemporâneo. Primeiro, toda política é biopolítica. Segundo, o que atualmente se denomina como democracia é apenas técnica de governo. Terceiro, os campos de concentração tornaram regra o que era exceção. Quarto, o campo de concentração jamais deixou de existir.

            Dessa forma, a operação lava jato difundida pelo Ministério Público Federal no Paraná – MPF/PR reproduz a lógica, destaco que não se restringe a essa intervenção[2], destarte, adquire volumes assustadores pela espetacularização midiática (na mesma dimensão ocorrem investigações como a Zelotes, sonegação de impostos da Rede Globo na transmissão da copa do mundo de futebol de 2002, caso HSBC, Triplex da Família Marinho, FIFA, CBF, Panamá Papers, portanto, sem o mesmo peso nos canais de comunicação de massa). As práticas também são operacionalizadas pelos governos, relações pessoas e institucionais.  

            Ao ler com cuidado o artigo: CONSIDERAÇÕES SOBRE A OPERAÇÃO MANI PULITE do professor e juiz federal da vara criminal de Curitiba, Sergio Fernando Moro duas questões chamam atenção, primeiro, as aproximações da operação italiana com a realização da operação Lava Jato. Segundo, o enaltecimento do utilitarismo londrino de Jeremy Bentham e John Stuart Mill (Teorias à luz dos séculos XVII e XVIII) como princípio do máximo bem-estar. Destaco alguns trechos do texto para análises, em momentos citações utilizadas pelo autor:

Os responsáveis pela operação mani pulite ainda fizeram largo uso da imprensa. Com efeito: Para o desgosto dos líderes do PSI, que, por certo, nunca pararam de manipular a imprensa, a investigação da “mani pulite” vazava como uma peneira. Tão logo alguém era preso, detalhes de sua confissão eram veiculados no “L’Expresso”, no “La Republica” e outros jornais e revistas simpatizantes. Apesar de não existir nenhuma sugestão de que algum dos procuradores mais envolvidos com a investigação teria deliberadamente alimentado a imprensa com informações, os vazamentos serviram a um propósito útil[3]. O constante fluxo de revelações manteve o interesse do público elevado e os líderes partidários na defensiva. (MORO, 2004, p. 59)

            Dedutivamente o ato se repete no Brasil. Ao compreender o que é um lava jato, vislumbra-se uma máquina de pressão que permite a água atingir com força e precisão locais antes obtusos. Quando respeitado as recomendações do fabricante funciona harmoniosamente, outrossim, quando boicota as regras admite problemas, parece essa a metáfora, alguma mangueira de alimentação está desconexa e vazando, de modo que a água limpa se mistura com a suja e necessite de descarte (a generalização é permissiva para que os filiados dos partidos políticos sejam taxados como corruptos e paguem pelo indevido uso do dispositivo – fomento para o Homo Sacer).

             No limiar, a ruptura é criada de maneira proposital, as informações da investigação vazam porque esse é o objetivo, contudo, a tubulação termina no Grupo Globo, na Revista Veja ou no Grupo Folha. Como requer a engenharia, os aquedutos necessitam de filtros, o que torna refinado o produto. Não é a toa que há uma seletividade nas notícias.

            Na Itália a operação foi nevrálgica pela forma de deslocamento, arrebentou propostas de sociedade que somente são peculiares aos partidos políticos, à abrangência dos fatos deslegitimou na totalidade seus participes pelo ódio promulgado, factível no Brasil, transformaram política sinônimo de corrupção. Na parcialidade da divulgação dos fatos, abre-se brecha para setores da população ensandecidos recorrerem a caça generalizada e desenfreada, movimento vislumbrado pela segmentação intolerante da política, tornando exceção em regra. O judiciário de Sergio Moro, instaurou a sociedade da desconfiança, as relações sociais, políticas, jurídicas e econômicas jamais serão as mesmas.  

A operação mani pulite ainda redesenhou o quadro político na Itália. Partidos que haviam dominado a vida política italiana no pós-guerra, como o Socialista (PSI) e o da Democracia Cristã (DC), foram levados ao colapso, obtendo, na eleição de 1994, somente 2,2% e 11,1% dos votos, respectivamente [...] A deslegitimação do sistema foi ainda agravada com o início das prisões e a divulgação de casos de corrupção. A deslegitimação, ao mesmo tempo em que tornava possível a ação judicial, era por ela alimentada: A deslegitimação da classe política[4] propiciou um ímpeto às investigações de corrupção e os resultados desta fortaleceram o processo de deslegitimação (MORO, 2004, p. 57).

            Deslegitimar significa: subtrair a condição de legítimo, anular autoridade. Na Ciência Política sabe-se que os espaços esvaziados rapidamente são preenchidos, contudo, no desrespeito do que outrora constituía história, esse é o trâmite, fragilizar, contundir, abolir. Em tempos de cólera, misoginia, baixa estima, vislumbra-se o Messias, salvador da pátria. Na Itália “Silvio Berlusconi, magnata da mídia e um dos investigados” (MORO, 2004, p. 57) assumiu o posto de Primeiro Ministro em 1994 (ao que parece a história se repetirá no Brasil com Eduardo Cunha). No Brasil em 1964 os militares[5] ascenderam ao poder carregando a premissa de combater os comunistas e a corrupção[6].

            Atualmente presenciamos o endeusamento de Jair Messias Bolsonaro. Como deputado federal se destaca pelos posicionamentos conservadores advindos da cristandade, bem como, adoração pelo Regime Militar, não está no palco vossas categorias e sim a intolerância ao pensamento contrário (facilmente enquadrado como FACISTA). É venerado pela massa nos discursos que concebe a ordem. De outro lado causa ojeriza pelas veracidades que IMPÕEM, seja na conclamação da violência pelas forças armadas ou em sua simbologia. A filosofia hegeliana sem dúvidas estremece quando nega à dialética.

         Durante o VII Simpósio de Integração Jurídica do Gabinete do Comandante do Exército, ocorrido entre os dias 16 e 18 de março no Comando Militar da Amazônia, o Comandante do Exército Brasileiro, general Eduardo Villas Bôas, situou-se frente ao clamor por intervenção assistidos nas manifestações pró-impeachment:

[...] lamentável que, num país democrático como o Brasil, as pessoas só encontrem nas Forças Armadas uma possibilidade de solução da crise, mas isto não é extensivo nem generalizado e, felizmente, está diminuindo bastante a demanda por intervenção militar (SOUZA, 2016).

            Na pesquisa realizada em 2014 pela Fecomércio-RJ, constatou-se que 70% dos brasileiros não leram livros. Em hipótese está explicado o clamor pelo Messias, agente que salvará o país implementando as dádivas do céu na terra. São sintomáticos os compartilhamentos no Facebook e reprodução de bordões, não há ceticismo. Tornaram o judiciário e as mídias inquestionáveis[7], logo, o corporativismo obtém sucesso com as planificações.

            Sociedades que não leem, logo, abdicam da história e facilitam o golpe, ou seja, subtração da ordem em virtude etnocêntrica. Dessa maneira, ser cético em relação ao ativismo judiciário e a mídia de massa podem tonar os cidadãos mais racionais. O momento é de fortalecer a política, debater, trazer do horizonte as leituras, o contraditório, profanar o direito e repudiar a banalização do Estado de Exceção. O combate à corrupção é imprescindível para sociedades que desejam caminhar a frente do seu tempo, entretanto, o mínimo é que as instituições sejam imparciais na condução dos fatores. Ser contrário somente à corrupção dos outros não permitirá avanços. Assim, a prática é social.




REFERÊNCIAS

ADORNO. Theodor W. Educação e emancipação. Tradução Wolfgang Leo Maar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

AGAMBEN, Giorgio. O que resta de Auschwitz: o arquivo e a testemunha. Tradução de Selvino J. Assmann. Sao Paulo: Boitempo, 2008.

_______________. Estado de Exceção. Tradução de Iraci D. Poleti. São Paulo:Boitempo, 2004.

_______________. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.

ASSMANN, Selvino José. DA HISTORICIDADE DA RAZÃO E DA RACIONALIDADE DA HISTÓRIA. Estudo sobre a filosofia da história de Hegel. 1992. f. 76. Trabalho escrito (para concurso público de professor titular junto ao Departamento de Filosofia – CFH – UFSC – área: Filosofia da História) UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.   

DURKHEIM, Émile.  As regras do método sociológico. 1ª ed. São Paulo: Ed. Abril Cultural, 1973. (Coleção : Os pensadores)

HEGEL, George Wilhelm Friedrich. Princípios da Filosofia do Direito. Tradução; Orlando Vitorino. São Paulo: Martins Fontes, 1997. – (Clássicos)

______________. Ciencia de la Logica . 2 vol. 6ª ed. Trad : Augusta e Rodolfo Modolfo. Bue nos Aires: Librarie Hachette, 1993.

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[1] Ensaio elaborado por Felipe Onisto – Sociólogo. Acadêmico no Programa de Mestrado em Desenvolvimento Regional da Universidade do Contestado - UnC. Professor e coordenador do curso de graduação de Ciências Sociais da Universidade do Contestado - UnC. Atualmente vincula-se ao grupo de pesquisas interdisciplinar em Ciências Humanas - CNPq e grupo de estudos de Giorgio Agamben.
[2] Não está em cena a negação das investigações, mas, os horizontes do Estado de Exceção protagonizados, opções políticas e consequências para o futuro político do país, ao que pese os fatos, a justiça tem como primórdio a neutralidade.
[3] Grifo meu.
[4] Grifo meu.
[5] Nesse caso, é limiar a parcialidade da mídia, rememorável o apoio maciço do jornal: O Globo no editorial de 2 de abril (2009) do corrente ano (atenção para justificativa do Estado de exceção e configuração do Homo Sacer), assim como a opção da luta armada por alguns militantes da esquerda política. “Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições. [...] a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem [...] da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo. [...] Salvos da comunicação que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem”.
[6] Ineficientes sob o ponto de vista do combate a corrupção, caso contrário, não existiria hoje. Émile Durkheim (1973) retrata como funciona a criminalidade, impossível uma sociedade que esteja livre dela. Até mesmo o prof. e Juiz Sergio Moro sabe disso, é límpido em vosso texto: “A ação judicial isolada tem como efeito apenas incrementar os riscos da corrupção, evidenciando as consequências caso ela seja descoberta. Uma ação judicial bastante eficaz, como foi o caso, pode no máximo interromper o ciclo ascendente da corrupção. Não obstante, não é crível que, por si só, possa eliminá-la, especialmente se não forem atacadas as suas causas estruturais” (2004, p. 60). Mani pulite permitiu o aperfeiçoamento da corrupção na Itália, visto que suas causas estruturais não foram combatidas, a cena se repete no Brasil.
[7] Vale estudar em Marx os conceitos: alienação e ideologia.

Como citar esse texto:

ONISTO, Felipe. Política brasileira: o ativismo judiciário e midiático. Blog Café com Sociologia. 2016. Disponível em: . Acessado em: dia mês ano.







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