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O que é Anomia?


Por Cristiano das Neves Bodart


O conceito de anomia foi, na Sociologia, cunhado por Émile Durkheim nas obras “Da Divisão Social do Trabalho” (1893) e “Suicídio” (1897) e depois utilizado na obra “A Educação Moral” (1902), onde abordou o papel da moral no combate ao estado anômico. Para esse sociólogo, a anomia é uma situação social produzida pelo enfraquecimento dos vínculos sociais e pela perda da capacidade da sociedade regular o comportamento dos indivíduos, gerando, por exemplo, fenômenos sociais como o suicídio. Trata-se de uma ausência de um “corpo de normas sociais” capaz de regular o convívio social marcado pela “solidariedade”. 

Para Durkheim a anomia é uma etapa temporária, produto das rápidas transformações sociais, perda da fé (em seu sentido mais amplo) e das tradições. Essa etapa, para ele, é superada a partir do momento que grupos de interesses determinam novas regras a fim de regulamentar o que encontra-se “desajustado” na sociedade, assim como afirmar novas tradições ou refortalecer as já estabelecidas. Nesse sentido, anomia seria um mal crônico das sociedades modernas, marcada pelas rápidas transformações sociais, as quais levam a situações de desajustes sociais causadas pela crise (ou ausência) de uma forte “consciência coletiva”. 

No contexto de uma situação anômica, os limites sociais se encontram frágeis ou não existem, não estando claro o que é justo ou injusto, legítimo ou ilegítimo; perde assim, os indivíduos, as referências sociais. Essa situação gera um sentimento de frustração e mal-estar, parecendo que não existem normas e imperar o "tudo pode".


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Resenha crítica do filme "A fonte das mulheres"*

Por Francielly de Paula Guimarães de Lima**

Não era só por água encanada.
Por que a luta de Leila configura a luta pela democracia?

Sobre o filme:
Dirigido por Radu Mihaileanu (diretor de filmes como “Trem da vida”, “Um Herói do Nosso Tempo”, “O concerto”, entre outros), com roteiro de Alain-Michel Blanc e do próprio diretor; “A fonte das mulheres”, que foi lançado em 2011, na França, sendo um filme produzido por Luc Besson, Denis Carot e Gaetan David, distribuído pela Paris Filmes. Sua classificação indicativa não é recomendável para menores de 14 anos.


Análise:
Este filme pode ser analisado a partir de três perspectivas: a das mulheres; a dos homens e; a do Estado juntamente com a religião. Todavia, é necessário tentar entender o contexto social do cenário do filme.

Em uma aldeia norte-africana, que sofre com a seca, sem água encanada, energia elétrica e de condições econômicas precárias – ela era sustentada, principalmente, por doações dos turistas –; enquanto uma mulher dá à luz a um filho homem (recebido com festa), outra, nas montanhas, perde o bebê que gerava ao cair quando se esforçava para trazer água da fonte e abastecer sua casa.

A questão feminina já aparece, desde o início do longa-metragem, enraizada numa cultura machista, com bases em tradições antigas e fundamentadas em argumentos religiosos que ajudam a manter uma espécie de hierarquia social, onde os papeis femininos e masculinos são especificados e distintos entre si. E é esse contexto que torna evidente os principais papeis da mulher naquela sociedade: procriar e cuidar do lar.

Era tradição, naquela aldeia, que as mulheres buscassem água na fonte porque elas eram as responsáveis por cuidar do lar. Em contraste com essa situação, também pelo que conta a tradição, o esforço dos homens se dava na procura de um trabalho que pudesse trazer renda para a família. Numa situação mais extrema, que possa ser comparada ao esforço físico desempenhado pelas mulheres, os homens iam para as guerras a fim de proteger sua comunidade, oferecendo sua própria vida se fosse necessário. Se olhada por essa perspectiva, a tradição oferecia uma condição perigosa a ambos os gêneros.

Entretanto, com o passar dos anos, se muita coisa na vida das aldeias daquela região havia mudado, a tradição permanecia a mesma. Pelo menos, no que se refere à condição da mulher. Era real que não havia mais guerras, e assim, os homens não precisavam mais sacrificar suas vidas pela segurança de suas famílias e de sua comunidade. Alguns deles ainda continuavam indo para a cidade em busca de dinheiro – afinal, todos precisavam comer, e as crianças (pelo menos os meninos) precisavam estudar; outros, porém, nada faziam além de passarem o dia no bar bebendo chá e jogando cartas. No caso das mulheres, que desde antigamente, geravam bebês e carregavam água, nada mudou. Quer dizer, nada até Leila (personagem interpretada por Leïla Bekhti) aparecer.

Ela não havia nascido naquela aldeia, mas havia se casado com Sami, personagem interpretado por Saleh Bakri, e consequentemente passou a fazer parte daquela comunidade. Foi ela, com o apoio do marido e de outra personagem conhecida como “Velho Fuzil” (interpretada por Argelina Biyouna) quem começou os questionamentos sobre a tradição, sobre o papel da mulher e sobre sua imagem frente aos homens e à religião – desencadeando indiretamente, um papel importante perante o Estado.

Revoltada com mais uma mulher que perdeu o filho que esperava, a personagem afirmou que eram os homens quem deveriam buscar água porque eram mais fortes e não sofreriam tanto com esse esforço quanto as mulheres. Leila destaca, e Velho Fuzil reafirma, que outras mulheres já perderam seus bebês antes, e se os homens se recusassem a ajuda-las, todas deveriam fazer uma “greve de amor” até que eles decidissem ceder. Sua ideia, no entanto, não é bem recebida pelas outras mulheres da comunidade, e elas se recusam a fazer parte da resistência idealizada pela esposa de Sami.

Só a título de informação, é importante destacar que quando uma mesma mulher perdia com frequência o filho que estava gerando, ela era considerada por seu marido, e pela família dele, uma mulher estéril, uma mulher de ventre seco, e, ou era repudiada ou era obrigada a ver seu marido casando-se com outra. Também a título de informação, a educação básica era prioridade para os homens. Sami era professor na aldeia e, particularmente, lutava para que tanto as meninas quanto os meninos, tivessem acesso a ela. Naquela sociedade, não era necessário que uma mulher soubesse ler e escrever. As meninas eram mais úteis ao lado de suas mães, aprendendo a cuidar do lar. Se uma menina frequentasse a escola, poderia, no futuro, desejar continuar com os estudos na cidade e, dessa maneira, quem desempenharia os serviços da casa? – essa questão ajudava a fortalecer a hierarquia social daquela aldeia.

Quando a “greve de amor” definitivamente começou, Leita contava apenas, ou principalmente, com o apoio de seu marido e de Velho Fuzil. Ao decorrer do filme, esse quadro mudou, mas não o suficiente para fazer do movimento tão grande e tão visível quanto deveria ser.

Os homens da aldeia enxergavam a greve das mulheres como uma afronta à sua autoridade masculina e às leis de Alá. Muitas mulheres sofreram violências físicas ao aderirem ao movimento. Quando se negavam a “cumprir seu papel de mulher”, apanhavam e eram estupradas pelos próprios maridos. Mas ainda assim, resistiram, fazendo os homens recorrerem ao Imame[1] da aldeia, pedindo-lhe que convencesse as mulheres de que Alá desaprovava seus desejos de superar a tradição.

Este, até o tentou fazer, mas Leila, diferentemente da maioria das mulheres, sabia ler, sabia escrever (foi Sami quem a ensinou), e pensava por conta própria. Quando Imame tentou legitimar as agressões dos maridos – dizendo que Alá sabia o que pedia aos homens, que o castigo não devia ser violento, mas de caráter educativo e afetivo – baseando-se nas escrituras do Alcorão, foi baseada no mesmo livro que a personagem de Bekhti (que a interpretou brilhantemente, diga-se de passagem) mostrou que na verdade, era de igualdade e de uma convivência fundada na paz que as leis de Deus falavam. Sendo assim, tudo que se mostrasse diferente disso era uma interpretação, um “desvio da escritura por interesses pessoais”.

Não era só por água encanada! Tampouco para elevar às mulheres ao “lugar dos homens” que Leila lutou. A personagem desejava respeito e amor. Desejava que entre elas e os homens, existisse uma convivência baseada na paz, na igualdade. Ela queria que todos se ajudassem. Por que, então, a luta de Leila configura a luta pela democracia?

Em “A democracia pode ser qualquer coisa?”, de Giovanni Sartori, a democracia aparece como uma teoria cujo significado é vasto. Contudo, de uma maneira mais simplificada, o autor a define como um governo onde o poder está nas mãos do povo. De uma maneira mais aprofundada, Sartori explica que quando se fala em democracia, não se fala apenas em seu significado semântico, mas também no que ela representa.

É justamente a vastidão de seu significado um dos maiores problemas da democracia. À medida que todos se declaram democráticos, ela pode parecer significar qualquer coisa. Mas não é bem assim! “Uma democracia só existe à medida que seus ideais e valores dão-lhe existência” (SARTORI, 1994).

Anteriormente, afirmei que o filme poderia ser analisado a partir de três perspectivas: mulher, homem, estado-religião. Descrevi a situação dos papeis femininos e masculinos baseados em tradições religiosas que configuravam uma espécie de hierarquia social. Se essa tradição legitimava a permanência das mulheres na busca da água, quando os homens há muito haviam participado de guerras, quando o Estado começa a fazer parte dessa discussão?

Em prol da implantação da água encanada nas aldeias, os homens do filme haviam enviado uma licitação ao Estado pedindo que certa atenção fosse dada ao assunto. Até então, nada foi feito. E estes não voltaram a solicitar melhorias. Quando as mulheres se mobilizaram e exigiram que os homens buscassem a água, ameaçando não cumprir o “seus papeis obrigatórios”, a “afronta à autoridade masculina” desempenhada pelas mulheres, parecia mais importante e muito mais grave do que a omissão do Estado nas tarefas que, realmente, lhe eram obrigatórias.

Em uma cena do filme, o personagem que representa o Estado, afirma que existiam outras prioridades, e cita a energia elétrica como exemplo; ele afirmava que esta já o custava bastante. Fazendo uso da tradição para camuflar sua ineficiência, o personagem-Estado alegava que quanto mais demorada a chegada da modernização na aldeia, melhor seria para os homens. Afinal, se as mulheres mantinham-se ocupadas carregando a água, menos tempo teriam disponível para ficarem ao telefone, ou não pensariam em desejar máquinas de lavar (ou seja, menos despesas).

Quando as mulheres conseguiram a ajuda de um jornalista que estava na cidade, fazendo com que sua causa tivesse um alcance maior do que dentro da própria aldeia, foi que o Estado tomou uma decisão. E não por compreender que era seu papel assistir aquela comunidade, mas temendo que as mulheres de toda região se unissem em solidariedade àquela aldeia e juntas, exigissem muito mais do que água encanada.

Se assim como aparece no texto de Giovanni Sartori, a democracia é um governo cujo poder está na mão do povo, a mobilização liderada por Leila configurou uma luta por democracia. Independentemente do motivo real que levou o Estado a implantar um sistema de tubulação na aldeia, começou com aquela mobilização. É claro que essa configuração teria muito mais peso, muito mais significado, se tivesse tomado proporções maiores na região. Mas o importante é que Leila lutou pelo bem de seu gênero (o que também beneficiou ao gênero oposto). De uma maneira geral, Leila lutou pela sua comunidade, logo, foi democrática.

O vasto significado atribuído à democracia pode desestabilizar sua eficiência, mas olhando com um pouco mais de atenção para “A fonte das mulheres”, podemos claramente enxergar que o que realmente desestabiliza uma democracia é a segregação de seu povo.

Enquanto os homens se julgavam superiores às mulheres, e a tradição cultural mantinha a hierarquia social configurada na distribuição dos papeis de gênero de maneira que afirmasse a posição masculina de superior, não houve melhoria. Mesmo que seja obvio que o motivo maior do Estado foi o medo da epidemia de conscientização entre as mulheres.

Para os homens, enquanto seu lugar de superior dentro da sociedade era assegurado, pouco importou se a aldeia tinha um sistema de tubulação – não era porque as mulheres viam torneiras na TV, que a aldeia precisava delas. Eles haviam enviado uma licitação há dois anos, mas não foi atendida, o que podiam fazer?  Foi preciso que uma mulher, capaz de desconstruir um paradigma social, se valendo de seu conhecimento, e podendo se basear na mesma fonte que os homens usavam para aprisionar seu gênero, trouxesse a mudança.

Então, pode-se afirmar que o conhecimento também legitima a democracia. Se dentro de uma sociedade onde os papeis sociais são hierarquizados em dominadores e dominados, onde o só o dominador tem acesso ao conhecimento que alimente seus ideais e seus interesses pessoais, o conhecimento ampliado (no sentido de também pertencer aos dominados) é o caminho para a democracia, uma vez que ela “resulta de interações entre seus ideais e sua realidade e é modelada por elas: pelo impulso de um deve ser e pela resistência de um é.” (SARTORI, 1994).

Recomendo este filme não só por seu conteúdo social-político próprio para discussões social-políticas. Recomento este filme porque sua produção é de uma delicadeza incontestável, repleto de interpretações maravilhosas, fiel a uma realidade e, principalmente, despretensioso politicamente, pelo menos de uma maneira direta.



[1] Sacerdote mulçumano considerado o guardião da ordem, do respeito às leis de Alá e do Alcorão


Referências bibliográficas:


SARTORI, Giovanni. A Democracia pode ser qualquer coisa? In SARTORI, G. A Teoria da Democracia revisitada. São Paulo: Editora Ática, 1994.

FONTE das mulheres, A. Direção: Radu Mihaileanu. Produção: Luc Besson, Denis Carot e Gaetan David. 2h10min. Paris Filmes, 2011.


* Resenha apresentado na disciplina de Ciência Política III, ministrada pelo professor Júlio Cezar Gaudêncio da Silva, da  Universidade Federal de Alagoas, Instituto de Ciências Sociais (ICS).

** Graduanda em Ciências Sociais pela UFAL.

Segue o filme completo dublado:

Erros metodológicos comuns na análise social



Por Cristiano das Neves Bodart

cristianobodart@hotmail.com

É comum vermos não iniciados em Ciências Sociais se propondo a tirar conclusões em torno da realidade social. Geralmente usando como base o senso comum. Porém, em alguns casos, nota-se uma tentativa de utilizar-se de um método para fazer tais análises.

Não propomos apresentar aqui metodologias ou realizar análises exaustivas, mas propor uma atividade de reflexão em torno de “métodos” que vemos se espalhar pela internet, sobretudo via redes sociais. Tomaremos um exemplo para análise. O exemplo, trata-se de uma boa (assim acreditamos) maneira de conduzir os iniciantes em Ciências Sociais a problematizar “testes” de “análises” da realidade social. 

A atividade deve ser realizada em etapas. Vamos a elas:

Etapa 1: Explicar que o vídeo a seguir trata-se de um experimento, onde duas situações foram simuladas a fim de analisar os resultados em compará-los. No primeiro momento coloca-se um homem branco com uma arma (AR-15) para observar como ele é abordado pela polícia. Depois o mesmo é feito com um homem negro.

Etapa 2: Assistir o vídeo a seguir:


Etapa 2: Perguntar aos discentes se eles podem tirar conclusões a partir desse experimento e quais seriam. 

Etapa 3: Explicar sobre os cuidados que temos ter ao elaborar um métodos e aplica-lo. No caso desse vídeo, a proposta do teste é interessante e intrigante (no mínimo nos faz pensar na questão), mas há problemas metodológicos por envolver indivíduos (os dois policiais) diferentes (uma vez que a reação pode ter mais a ver com eles do que com a instituição) e por ser realizada uma única vez, não tendo representatividade dentro do universo que parece tentar generalizar a conclusão.

Outro problema é não mostrar como se comportava o "homem branco" antes da abordagem. Não sabemos se o comportamento era o mesmo (caminhando próximo a uma avenida com uma arma). Em síntese, notamos problemas na execução (quando a proposta é comparar, tudo deve ser reproduzido, sem muitas variações) e na incapacidade de generalização pelo tamanho da amostragem.

De qualquer forma, o vídeo nos parece bastante rico para o processo de ensino-aprendizagem do uso de métodos nas ciências sociais, ainda que nos levando a aprender com os erros existentes.




Sob o resquício da Ditadura e o avanço da Democracia

Por Cristiano das Neves Bodart*
cristianobodart@hotmail.com

Sob resquício da Ditadura e avanço da Democracia, professores foram agredidos no estado do Paraná. Esse fato evidencia o quanto estamos em um “campo cinza”, onde avanços e retrocessos estão imbricados.

O governador da Paraná, Beto Richa (PSDB), sob o argumento de que as contas públicas estaduais não estão em “boa saúde”, realizou mudanças previdenciárias no fundo estadual (ParanaPrevidência), o que vem provocando o descontentamento dos servidores públicos, sobretudo entre os professores da rede pública estadual de Ensino Básico. Essa situação poderia ter outros desfechos caso não estivesse o Brasil em um momento de cisão com seu passado recente, marcado pela repressão, e se não fosse a prática democrática, ora experimentada, pedagógica (participação social gerando mais participação).

Há 20 anos o Brasil oficialmente deixava de ser uma Ditadura Militar, dando seus primeiros passos rumo à democracia. Não oficialmente, a classe política manteve as práticas do militarismo (aperfeiçoada durante os “Anos de Chumbo”) sob sua tutela. Ao sinal de ameaças a seus interesses, coloca-se a Polícia Militar nas ruas para garantir a “ordem das coisas”. Por outro lado, desenvolveu-se uma cultura política entre os cidadãos, os quais, a cada participação em ações coletivas, aprendem participar ainda mais das questões coletivas. Desta forma, temos hoje um processo de mudanças que imbrica o “velho” e o “novo”.

Há dois "momentos" que formam o momento atual brasileiro, uma espécie de dialética onde o velho e o novo se encontram e se desafiam. Com a oficialização do fim da Ditadura, e a Reforma Política, os partidos políticos e seus integrantes se depararam com uma nova situação. Passaram a ver os movimentos sociais e as ações coletivas tomarem as ruas e ganharem força e mais adeptos. A esfera pública se esticou, abarcando mais atores e novas demandas. Até os partidos de esquerda se viram em uma situação onde tiveram que rever a ideia de que eram o único meio de realizar mudanças sociais mais profundas. Alguns partidos e/ou políticos em parte se adequaram, criando espaços institucionalizado de participação social, tais como conselhos, fóruns e Orçamento Participativo. O contexto atual é de aprofundamento democrático e a sociedade quer ser ouvida e, obviamente, beneficiada por meio de políticas estatais, afinal, para isso existe o Estado: provê benefícios coletivos.


O governador do Paraná, ignorando esse contexto, tenta “colocar de goela à baixo” medidas impopulares. O resultado é uma multidão nas ruas protestando. No início deste ano eclodiu-se a primeira manifestação dos professores daquele estado, que na ocasião levou deputados a deixarem a Assembleia Legislativa em camburões da Polícia Militar e escoltados. Agora, o pacote de mudanças reaparece com uma nova maquiagem e é colocada em pauta novamente na Assembleia. Se o governador não aprendeu com a experiência de fevereiro, os professores aprenderam. Ignoram Beto Richa, e os deputados da situação, que há um caráter pedagógica em cada ação coletiva e que nesses 20 anos de processo de aprofundamento da democracia brasileira, esses últimos anos têm sido uma “pós-graduação” para os professores daquele estado. Pena que o aprendizado parece não ser o mesmo para os políticos como Beto Richa, que ao invés de buscar o diálogo, quer mesmo é aprofundar a “rincha” e usar as velhas armas, resquício da Ditadura. Assim, sob esses resquícios, professores são atacados como se fossem grupos paramilitares. O pior é que a grande mídia fala em “confronto”, quando na verdade o que vemos é um ataque da PM sobre aqueles que só aprenderam a lançar ideias, utopias e esperanças de uma país melhor para os nossos jovens.




* Doutorando em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP. Tem os movimentos sociais como tema de estudo em seu doutoramento.




A Educação para as Relações Etnicorraciais*


Por Fabíola dos Santos Cerqueira**

No ano letivo de 2015 iniciamos, nas aulas de Sociologia, com os estudantes do 3º ano do Ensino Médio Regular um projeto o qual denominamos de “Onde está o negro?”. Esse projeto é desenvolvido em parceria com o PIBID Ciências Sociais/UFES. Na primeira etapa do projeto introduzimos conceitos como cultura e etnocentrismo. Após, solicitamos que os estudantes desenvolvessem pesquisas de campo em diferentes espaços sociais, analisando os papéis desempanhados pelos negros. O resultado desse trabalho de pesquisa constata que os negros, em sua maioria, não ocupa papel de destaque, nos espaços sociais pesquisados pelos jovens estudantes do Ensino Médio. A pesquisa foi realizada em diferentes espaços sociais como hospitais, escola, unidades de saúde, shopping, dentre outros.

“Nós, negros, estamos em toda a parte, mas ninguém nos vê”, revela um dos estudantes em seu relatório de pesquisa. Essa frase mostra que o estudante assume sua identidade negra mas sente-se invisível. Essa invisibilidade nos remete, por exemplo, a uma sociedade que defende a redução da maioridade penal, mas não reflete sobre os elevados índices de homicídios contra jovens negros.

No período de escrita do projeto iniciei uma pesquisa de campo nas lojas de brinquedo em shoppings centeres de Vitória e Serra, em busca de bonecas negras. As bonecas negras não existem  na maioria das lojas e quando as encontramos, ou são feias e bem diferentes dos modelos brancos expostos; ou conservam os mesmos estereótipos das bonecas brancas mudando apenas a cor. Isso quando não encontramos apenas as “moreninhas”.

Numa das lojas, em diálogo com a gerente e um vendedor, identifiquei que a procura por bonecas negras é bem pequena, mesmo por meninas negras, daí a quantidade e a variedade na loja ser pequena. Os funcionários da loja veem com naturalidade essa baixa procura e quando provocamos para a necessidade de se pensar em bonecas negras, com deficiências, enfim, para que a diversidade estivesse presente também nas bonecas, a gerente afirmou que não seria uma boa ideia, pois os pais teriam resistência em entrar numa loja e ver nas vitrines bonecas negras, sem braço ou perna, em cadeira de roda ou com sindrome de down. Essa mesma provocação foi feita com empresas que produzem bonecas. Uma afirmou que já fabrica um bebê negro (moreninho, como descreveu uma vendedora) e outra, afirma que irá pensar nas sugestões dadas por mim.

Casos como o da jornalista de Brasília que foi vítima de racismo nas redes sociais após atualizar sua foto no perfil do facebook chamam atenção da mídia, mas precisamos estar atentos ao racismo velado existente nas relações sociais estabelecidas por nós, também, nos espaços escolares. Utilizando outra metodologia de trabalho (o painel sociológico interativo coletivo), através da qual, os estudantes podem expressar seus sentimentos/pensamentos/opiniões num mural, constatamos, no final de abril, após a frase “Onde está o negro?” ficar exposta por uma semana nesse painel, através das palavras escritas que o racismo está presente em nosso meio e se esconde nas piadas, nas brincadeiras, nas zoações. Uma das frases expostas, “Os negros estão nas cadeias […] estão na injustiça social”, nos revela a visão dos jovens sobre o lugar social a que o negro é determinado pela mídia e pela ausência (ou ineficiência) de políticas públicas que pensem na inclusão social, na valorização da cultural e na identidade negra no Brasil.


O resultado preliminar desse trabalho nos dá indícios para a reflexão sobre a implementação da Lei 10639/2003 nos curriculos escolares da Educação Básica e sobre a formação inicial e continuada dos professores.. Os estudantes revelam desconhecer a História e a Cultura Africanas e Afro-Brasileiras. Como desconstruir preconceitos se não falarmos deles? Após 12 anos da Lei 10.639/2003 é urgente pensarmos “Onde está o negro?” e avançarmos rumo a uma educação que nos permita descontruir preconceitos e a respeitar o outro, superando a herança histórica da escravidão.


* Originalmente publicado no jornal A Tribuna, 11 de maio de 2015.
** Graduada em Ciências Sociais e mestre em educação pela Universidade do Espírito Santo/UFES.

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