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É contra ou a favor da redução da maioridade penal?

Por Roniel Sampaio Silva

Você é a favor do PRONATEC do crime?
O Congresso está com cerca de 9% de aprovação popular (Datafolha, Março de 2015), o que fazer pra melhorar este índice? Populismo penal. Aprovar a redução maioridade penal, aumentar as cadeias e se eximir da responsabilidade de investir em políticas públicas, trocar uma estatística de reincidência de 60% para 70%. (CONADA, 2013).  http://goo.gl/n47aHp

O que é Revolução e Reforma


O que é Revolução e Reforma 
Por Roniel Sampaio Silva

No nosso contexto político existem vários setores que têm opiniões divergentes sobre qual postura devemos tomar em torno dos nossos vários e emaranhados sistemas econômico, político e social. Tais posturas se resumem ao fato de que se deve conservar alguns elementos, reformar ou transformar outros. É no bojo dessa discussão que cabe diferenciar revolução e reforma.

Inicialmente, é necessário estabelecer o que é sistema. A principal característica de um sistema social segundo Lévi-Strauss (2014) é que este diz respeito ao conjunto de elementos os quais estão tão interrelacionados de maneira tal que a partir do momento que modifica um elemento, todo o sistema é também modificado.  

Categoricamente, a diferença básica entre uma revolução ou reforma é que, ao contrário da reforma, a revolução altera a estrutura social vigente, enquanto a reforma modifica apenas os aspectos acessórios do sistema. (Silva & Silva, 2009). Um exemplo de revolução é a Francesa, justamente porque esta mudou a estrutura social de nobreza, clero e plebe para burguesia e proletariado, basicamente.

É possível fazer metáfora sobre o assunto para melhor entendimento. Reformar a casa significa modificar apenas os aspectos aparentes ou superficiais, tais como paredes e fachadas. Já uma revolução seria modificar os pilares, estruturas e alicerces. Pra isso, obviamente, é necessário construir um novo prédio.



Referências
LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Editora Cosac Naify, 2014.
SILVA, Maciel Henrique; SILVA, Kalina Vanderlei. Dicionário de conceitos históricos. Editora Contexto, 2010.

A difícil tarefa de democratizar a sala de aula



A difícil tarefa de democratizar a sala de aula

Por Cristiano das Neves Bodart

A ideia de "democracia" está a cada dia ganhando mais simpatizantes, ainda que poucos saibam do que realmente se trata. Ora confundem democracia com liberdade de expressão, ora como eleições diretas esporádicas. O pior é quando a confusão é com a "libertinagem" (que entendemos aqui como liberdade sem limites) e a falta de uma figura dotada de autoridade. Isso comumente ocorre na escola.

A sala de aula é, em sua origem, um espaço de dominação e de autoritarismo. Por isso, tivemos nas últimas décadas tantos livros e artigos denunciando a nossa “pedagogia do oprimido”, ou melhor, de oprimir o aluno (palavra que já denota dominação, tenho seu significado etimológico de “a” = sem + “luno” = luz, ou seja, aluno = “sem luz”). Não adentrarei no campo das corretes teóricas; tentarei lançar luz à prática docente em sala de aula com base em minha experiência pessoal*, sobretudo, buscando refletir sobre uma questão: é possível a sala de aula ser um espaço democrático?

É comum ouvirmos pedagogos afirmarem que cabe ao professor definir as regras de sala de aula, deixando ao docente toda a responsabilidade do que ocorre na sala de aula. Esses apontamentos são tão comuns que são assimilados pelos professores e externalizados na frase “na sala de aula, eu sou a autoridade”. Nota-se aqui uma incoerência: democracia não combina com responsabilização de um único indivíduo, o qual se impõe como autoridade máxima.

Democracia é uma condição política de cooperação no governo. No sentido amplo, o governo do povo. Na sala de aula, temos um governo de todos? Professores e alunos construindo os rumos das aulas de forma participativa e deliberativa? Isso é possível?

Para que tenhamos uma sala de aula democrática é necessário mais que a atuação do professor. Dependerá do capital cultural dos educandos, de suas experiências anteriores de participação e deliberação. Dependerá de responsabilidade com a qualidade do ensino, com o interesse de tornar as aulas cada vez mais educativas.

Outra questão é pertinente: os educandos saberão criar normas de convivência e respeitá-las ainda que posteriormente venham a ser contrárias a seus interesses pessoais? Por várias vezes tentei, no início do ano letivo, definir de forma participativa as normas de convivência e as regras para a atuação discente e docente durante o ano, tais como, prazos, modalidades e formatos de provas e trabalhos, participações dos educandos na aula, respeito uns aos outros, etc. Algumas vezes tive êxito, outras não. Motivo básicos: a bagagem cultural dos educandos. Desconhecedores da democracia, confundiam esta com direitos e com libertinagem... Tornava-se necessário explicar que democracia demandava respeitar as regras do jogo construídas coletivamente. Em outras palavras, encontrei dois gargalos: a criação das regras do jogo de forma coletiva que fossem benéficas à todos; a observância, à posteriori, das regras quando essas iam ao encontro à seus interesses pessoais. Por outro lado, alunos que já vivenciavam um lar mais democrático, onde ele também era responsabilizado pelo bom andamento das relações interpessoais, facilitava a condução das aulas de forma mais democráticas.

Uma dificuldade estava em entender o papel do professor em um cenário democrático. Os alunos, assim como o corpo docente da escola, quase sempre pensavam que o ambiente democrático eliminava a autoridade do professor. Democracia nada tem a ver com falta de autoridade. Pelo contrário, ela combate o autoritarismo, mas preza pela existência de uma figura dotada de autoridade. Democracia não desfaz as hierarquias, não elimina as regras, pelo contrário, as proporcionam legitimidade, isso por terem sido construídas de forma participativa. Democracia demanda co-responsabilização, respeito as regras do jogo e, sobre tudo, sentimentos e ações altruístas. Seus alunos têm condições de assumir essas demandas? Sem elas, resta ao professor manter o velho ambiente de dominação e, quem sabe, aos poucos buscando influenciar a construção dos habitus dos educandos... mas com duas aulas por semana? "Eita" vida dura...

*Leciono há cerca de 12 anos, tendo dado aula em escolas com realidades sociais-culturais-econômicas diversas; passando por crianças do primeiro e do segundo ciclo do Ensino Fundamental, jovens (alguns já adultos) do Ensino Médio, e por jovens e adultos de graduação e de curso de especialização. 

A universidade é um espaço de doutrinação ideológica?


Por Pablo Ortellado*

Alguns comentários sobre a campanha "Escola sem partido". Sempre fico na dúvida se a postura correta é não alimentar esse tipo de polêmica ou se a ampla repercussão nos obriga a levar esse tipo de coisa a sério, antes que seja tarde demais. Achei que era o caso de falar, depois que uma querida amiga foi alvo dessa campanha infame. Meus dois centavos:

Só uma pessoa que esteja fora da universidade há pelo menos vinte anos ou nunca esteve nela pode achar que o ensino universitário é dominado pelo marxismo ou mesmo pela esquerda. Em São Paulo, por exemplo, onde a Faculdade de Filosofia da USP é insistentemente invocada para comprovar a difusão de um ensino doutrinador "marxista", não creio que existam, entre os seus mais de 400 professores, mais do que quinze marxistas, no sentido estrito do termo. Quem acompanha a vida universitária de perto sabe que há pelo menos duas décadas a esquerda é minoritária na universidade (não apenas na USP) e que nos últimos tempos o marxismo é uma corrente teórica com pouca difusão nas ciências humanas.

Acho que não exagero ao dizer que há um consenso no mundo acadêmico de que o ensino deve ser plural e que a formação em apenas uma corrente de pensamento, seja ela política ou teórica, é nociva ao estudante. Em geral, acredita-se que há duas maneiras de se alcançar isso: ou bem se acredita que cada disciplina deve apresentar internamente os valores e argumentos da corrente a que se vincula o docente e por meio da exposição a disciplinas diferentes o estudante forme um repertório plural ou se acredita que cada disciplina deve apresentar a pluralidade de pensamento nela mesmo, isto é, cada disciplina deve discutir objetos ou problemas apresentando a pluralidade das abordagens teóricas e políticas. Ainda que na universidade discutamos muito qual dos dois modelos é o mais apropriado, não me vem a mente um único colega que acredite que uma boa formação é unitária, baseada apenas na sua corrente de pensamento.

No caso específico das Ciências Humanas, isso significa que uma formação séria passa, necessariamente, pelo estudo de Marx e Adorno num curso de filosofia (assim como pelo estudo de Hegel e Nietzsche) e pelo estudo de Marx e Bourdieu num curso de sociologia (assim como pelo estudo de Weber e Parsons). Isso, obviamente, não se confunde com pregação ideológica ou doutrinação -- que quando é feita, é considerada por todos como vulgar e anti-acadêmica, seja num curso sobre Marx ou num curso sobre Ricardo.

Como apenas um fanático acharia que não se deve ensinar Marx e Weber num curso de sociologia ou Adam Smith e Keynes num curso de economia, resta portanto a questão se essa pluralidade universitária estaria comprometida por algum desequilíbrio na oferta de linhas de pensamento nas disciplinas que compõem os cursos. E aí, sem a menor sombra de dúvida, se formos encontrar algum desequilíbrio, será a subrepresentação das abordagens críticas: hoje, há muito pouco marxismo nas escolas de economia e mesmo nas de sociologia. Não me lembro de ver esses fiscais do pensamento se incomodarem com os inúmeros cursos de economia baseados apenas em manuais neoclássicos ou em formações inteiras em Relações Internacionais baseadas na doutrina neorealista.

Não posso falar com segurança do que acontece no ensino médio, mas meus colegas que ensinam lá dizem que a coisa não é diferente - e é razoável que seja parecida, já que muitos dos professores do ensino básico foram formados por nossas universidades.

Assim, campanhas como essa que ficam caçando "evidências" de que se está ensinando Marx em cursos de filosofia e concluem daí que o ensino é dogmático e busca formar "comunistas" são de uma ignorância tão profunda que não mereceriam comentário se não estivéssemos em tempos tão obscuros.

Possui graduação em Filosofia pela Universidade de São Paulo (1998) e doutorado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (2003). É professor doutor do curso de Gestão de Políticas Públicas e orientador no programa de pós-graduação em Estudos Culturais da Universidade de São Paulo. É coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai). Atualmente, desenvolve pesquisa sobre direitos autorais e políticas culturais.


Dica de aula - Identidade: muito mais que um documento


Tema: Identidade: muito mais que um documento

Por Cristiano das Neves Bodart

cristianobodart@hotmail.com


A proposta dessa postagem é indicar alguns caminhos para trabalhar em sala de aula a temática identidade.


1. Objetivos:
  • Introduzir a temática da identidade cultural; 
  • Apresentar a proposta de trabalho educacional para o quarto bimestre; 
  • Conhecer os alunos e a estrutura física da escola. 

2. Desenvolvimento da aula:

1° Momento (10 min.)

· Apresentação da música “Teatro dos Vampiros”.

· Discussão acerca da letra da música, buscando identificar qual das preocupações contidas nela dizem respeito ao jovem de hoje.

2° Momento (20 min.): Preenchimento do questionário sobre a “identidade” de cada aluno.

3. Estratégias de Ensino-aprendisagem:


·      Debate do tema em sala de aula.

Recursos Didáticos: 
·      Data show;
·      Aparelho de som e CD da Legião Urbana com a música "Teatro dos Vampiros";
·      Modelo de Identidade fotocopiado.

4. Referências: 
LEGIÃO URBANA. Teatro dos Vampiros. In: ______. Acústico MTV. S.l: EMI Records, 1992. 1 disco sonoro.




Modelo de "identidade":

 Identidade a ser preenchida pelos alunos:




Letra da Música
“Teatro dos Vampiros” 

Sempre precisei
De um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto
Nesses dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos
 
Esse é o nosso mundo
O que é demais nunca é o bastante
A primeira vez
Sempre a última chance
Ninguém vê onde chegamos
Os assassinos estão livres
Nós não estamos
 
Vamos sair
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão
Procurando emprego
Voltamos a viver
Como à dez anos atrás
E a cada hora que passa envelhecemos dez semanas
Vamos lá tudo bem
Eu só quero me divertir
Esquecer desta noite
Ter um lugar legal pra ir
Já entregamos o alvo e a artilharia
Comparamos nossas vidas
Esperamos que um dia nossas vidas possam se encontrar
 
Quando me vi tendo de viver
Comigo apenas e com o mundo
Você me veio como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito
Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo
Eu, homem feito
Tive medo e não consegui dormir
 
Vamos sair
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão
Procurando emprego
Voltamos a viver
Como à dez anos atrás
E a cada hora que passa envelhecemos dez semanas
Vamos lá tudo bem
Eu só quero me divertir
Esquecer desta noite
Ter um lugar legal pra ir
Já entregamos o alvo e a artilharia
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim
Não tenho pena de ninguém.







A biografia no campo da Sociologia: contribuições de Norbert Elias


A biografia no campo da Sociologia: contribuições de Norbert Elias

Por Cristiano das Neves Bodart
cristianobodart@hotmail.com

As biografias, muitas vezes, são apontadas como meras “fofocas”. Em se tratando de biografias de indivíduos desconhecidos, poucos são os que se interessam por elas. 

A sociologia, tradicionalmente, se preocupou com os fenômenos sociais, deixando de lado, por muito tempo, a preocupação com o indivíduo. Além dos estudos de sociologia reconhecidos posteriormente, como os trabalhos de Simmel, destaca-se um que, ao meu ver, é uma obra sociológica incrível. Estou me referindo a uma “biografia”. Parece paradoxo, mas na obra “Mozart: sociologia de um gênio” Norbert Elias nos fornece, para além da biografia do músico, uma metodologia sociológica que nos proporciona meios compreensão da “história de vida” atrelada ao “contexto histórico do indivíduo”. Destacamos que o indivíduo, nesse caso, não é o centro análise da obra, mas sim a sociedade na qual está inserida esse indivíduo. 

A proposta de Elias é problematizar as relações entre indivíduo e sociedade, buscando compreender como os indivíduos buscam “resistir” as “pressões sociais” e como essas limitam as possibilidades dos indivíduos. Vemos então a tão cara discussão agencia x indivíduo ou atores x estrutura.

A biografia de Wolfgang Amadeus Mozart, personagem estudado na obra, interessa ao estudo da sociologia à medida que sua trajetória é marcada pela história da época. Seu desejo por reconhecido de sua produção musical e a vontade de exercer seu talento de forma autônoma se vê confrontada com a estrutura social da época.

“[...] um músico que se deseja ser socialmente reconhecido como artista sério e, ao mesmo tempo, quisesse manter a si e a sua família, tinha de conseguir um posto na rede das instituições da corte ou em suas ramificações” (ELIAS, 1993, p. 18).

Por um lado o indivíduo, por outro, a estrutura social da época. Desta forma, Elias capta a tensão entre indivíduo e sociedade, ao mesmo tempo que ao apresentar a biografia do músico, expõe aos leitores a estrutura social da “sociedade de corte” e evidencia a “teia de relações” na qual está envolvida o indivíduo. Nessa direção, Elias afirma que:

“[…] em última análise, até mesmo tais decisões individuais ficam obscuras quando não se consideram os aspectos relevantes dos processos sociais não-planejados em que ocorram, e cuja dinâmica determina, em grande parte, suas consequências.” (ELIAS, 1993, p. 48).

Elias nos alerta, que a vontade individual não pode ser considerada fora da dimensão social, assim como a biografia de cunho sociológico não pode desconsiderar o momento histórico e a estrutura social estabelecida.

Dito isto, acreditamos que Norbert Elias nos indica um caminho metodológico onde é possível buscarmos a compreensão das estruturas sociais de uma época a partir do estudo “biográfico”, ainda que de indivíduos anônimos.


Referência
ELIAS, Norbert. Mozart: sociologia de um gênio. Rio de janeiro:. Editora Zahar, 1993.


Mozart e Raul Seixas frente a frente: uma aproximação a Norbert Elias*



Mozart e Raul Seixas frente a frente: uma aproximação a Norbert Elias*

Por Lucas Marcelo Tomaz de Souza**

Falar da “genialidade” do trabalho musical de Wolfgang Amadeus Mozart é como incursionar pelo senso comum. Tentar demonstrar a importância do austríaco para a história da música, a mesma coisa. Seu nome, atualmente, habita o panteão dos mais prestigiados e influentes artistas do nosso tempo. Mas, essa altíssima consagração, de certa forma, parece obscurecer fatos nada irrelevantes de sua trajetória. Mozart morreu jovem, enterrado em uma vala comum, endividado, esquecido e desprezado pelo público vienense. Afirmações do tipo: “ele estava à frente de seu tempo”, em nada aprofundam a compreensão dos fatos e apenas reafirmam uma imagem de “genialidade” que hoje envolve o nome de Mozart.

Mas, essa consagração póstuma, na verdade, não ofuscou o olhar atento do sociólogo alemão Norbert Elias, que se debruçou sobre a trajetória do músico austríaco. Sua investigação sobre  Mozart descortina uma série de características da sociedade europeia na virada do século XVII para o século XVIII. Na medida em que Elias se aprofunda em instâncias de teor mais biográfico, vão tornando-se claras as tensões de uma sociedade marcada por um processo de transição importante na história: a passagem de uma sociedade de corte para uma majoritariamente burguesa. Naquela virada de século, resquícios dessas duas ainda conviviam, e Wolfgang Amadeus Mozart aparece como ilustração de uma série de tensões da época.

Mozart foi um artista da corte, musicalmente educado nela, mas revoltado com a sua posição nessa estrutura social. Enquanto músico na sociedade aristocrática, ele gozava do mesmo status de qualquer membro da criadagem; do pasteleiro à lavadeira, Mozart não passava de mais um empregado da corte. Nesse ambiente, sua arte tinha um caráter meramente utilitário. Era produzida sob a encomenda de um mecenas, geralmente para animar um jantar, um aniversário ou uma recepção qualquer. E essa situação em nada se adequava às pretensões pessoais de Mozart, mais do que ninguém crente e consciente do seu talento e virtuosismo artístico. Sua insatisfação pessoal tinha como combustível um anseio por prestígio e a vontade de ser um artista “livre”. E sua saída da corte de Salzburgo, abandonando a segurança material conquistada às sombras do príncipe, demonstra a confiança que tinha em seu talento. Mozart acreditava ser um “gênio” quando a concepção romântica de “gênio” ainda não havia se constituído.

Norbert Elias destaca ao leitor as saídas possíveis para Mozart nessa sua “revolução individual”, tornando clara a própria condição do artista na sociedade aristocrática. Ou Mozart mudava de corte, aproveitando as disputas por prestígio que existiam entre elas no final do século XVII, ou se arriscava em um mercado artístico, na capital Viena, ainda bastante embrionário. Tendo em vista o tamanho das pretensões de Mozart, a segunda e mais ousada opção lhe pareceu mais adequada. Abandonar a corte era, para ele, a possibilidade de tornar-se um artista “livre”, vivendo exclusivamente das negociações com sua arte em um mercado que ainda engatinhava. Em resumo, Mozart sonhava com uma independência em um local onde as possibilidades mal emergiam.

Fazendo uma leitura um tanto quanto anacrônica dessa empreitada de Mozart, parece evidente que ele estava fadado ao fracasso. A literatura e a filosofia já gozavam de condições bem mais estruturadas que a música, com pequenas empresas gráficas, impressão, distribuição e venda de livros. Mas o mercado musical ainda dava seus primeiros passos rumo às características que mais tarde lhe dariam forma. E o resultado desse enfrentamento Norbert Elias nos dá logo nas páginas iniciais de seu livro: a morte trágica daquele artista que se julgava “gênio”, Wolfgang Amadeus Mozart.

A escolha por Mozart, na verdade, tem outras importâncias estratégicas dentro do empreendimento sociológico de Norbert Elias. Ao mostrar o peso estrutural da sociedade sobre aquele indivíduo considerado, atualmente, um prodigioso, sua intenção é também deixar evidente as forças das “figurações” sociais no modelamento das trajetórias individuais. Condicionantes objetivos que nem mesmo o “genial” Mozart conseguiu subverter.

Além disso, Norbert Elias esclarece como a trajetória trilhada por Mozart – desde a educação familiar até suas ambições em idade de amadurecimento – dão a ele uma forma específica de releitura das estruturas sociais que o cercam. Mais do que uma mera peculiaridade biográfica, o itinerário de deixar evidente a forma como Mozart relia as “figurações” sociais de seu tempo tem papel decisivo nas pretensões metodológicas de Elias, ao redimensionar as observações mais teóricas expressas em seu livro Sociedade dos Indivíduos. São, exatamente, nas reinterpretações que Mozart faz da sociedade de corte e de sua posição nesta que se encontram as pontes mais substanciais entre uma análise individual e social, capaz de romper as dicotomias entre o indivíduo e a sociedade.

Mesmo se tratando de uma obra inacabada de Elias, que tinha como intuito inicial um longo trabalho de investigação comparativa entre as trajetórias de Mozart, Beethoven e Bach, intitulada o Artista Burguês na Sociedade de Cortes, as reflexões expressas no livro Mozart, a Sociologia de um Gênio abrem generosas perspectivas analíticas dentro da sociologia da cultura. Ao ressaltar a importância da dependência social e financeira de Mozart para a construção de seu trabalho artístico,  Elias mostra um caminho de análise sociológica que pode muito bem ser adaptado a outros casos. 

Longe de paralelismo simplistas – até pelas distâncias sociais e históricas –, as tensões vividas  por Mozart lançam luz a uma série de questões que hoje envolvem a imagem do cantor e compositor  Raul Seixas. A primeira delas é a dificuldade de desvincular sua trajetória artística da admiração que  hoje se criou em torno dele. 

É difícil não se impressionar com a mobilização pública que acontece todos os dias 21 de  agosto, em frente ao Teatro Municipal de São Paulo, na Praça Ramos De Azevedo. Ali, uma multidão vestindo camisetas estampando o rosto de Raul Seixas segue em direção à Praça Da Sé, cantando suas músicas e rendendo suas homenagens ao músico baiano, no dia do aniversário de sua morte. Concomitantemente, seu túmulo, no Cemitério Jardim da Saudade, em Salvador, é coberto por flores trazidas por fãs de várias partes do Brasil. 

É, sem dúvida, um espéculo de admiração impressionante. Mas, a dimensão dessa “adoração”, por muitas vezes, acaba nublando um olhar mais atento para a própria trajetória de Raul Seixas.

Como é comum se fazer uma releitura meio à posteriori da trajetória de determinados artistas, certos acontecimento biográficos acabam ganhando contornos que, na realidade, atendem às demandas simbólicas do momento presente. No caso de Raul Seixas, é difícil não notar que a sua biografia, hoje, ganhou alguns superlativos provenientes desse clima de admiração que existe em torno de sua imagem. Além da eleição de alguns episódios mais conhecidos como digna expressão de sua trajetória, contados e recontados em inúmeras biografias que foram publicadas após a sua morte, é também recorrente uma espécie de “esquecimento” de alguns fatos que, com mais dificuldade, se ajustam no sentido eleito para a explicação e definição de quem foi, realmente, Raul Seixas.

A imagem do grande contraventor, daquele “Maluco Beleza” que estava, desde a infância, “predestinado” a subverter todas as regras e ditames sociais, se espalhou pelo lastro de suas canções e atitudes que, ao tornarem-se públicas, acabaram por solidificar essa ideia.

Não que isso seja de tudo mentira, mas algumas coisas devem ser levadas em conta. A primeira delas é que, no período mais fértil de sua vida artística – entre 1973 e 1976 – Raul Seixas trafegou pelo mainstream da indústria cultural brasileira. Além de ser um grande sucesso de público, empregado pela maior gravadora do país na época, a Philips/Phonogran, ele era um frequentador assíduo dos mais popularescos programas de televisão do país. Essa sua inclinação para um universo mais popular começou até um pouco antes. Entre 1969 e 1972, Raul Seixas trabalhou como produtor musical na gravadora CBS, que tinha, como principal contratado, o então campeão de vendas de discos no Brasil, Roberto Carlos. E como funcionário da gravadora, Raul Seixas produziu  e cuidou da imagem de muitos artistas que, atualmente, integram o conhecido – e “indesejado” –  segmento da “música brega”. Um período visto, hoje, quase como uma exceção em sua trajetória  artística, dada a pouca afinidade com que ele se ajusta a essa imagem de contraventor, sustentada por  Raul Seixas. No entanto, suas experiências enquanto produtor musical acabaram por deixar marcas  profundas em seu trabalho artístico. Seja na forma como manejou ritmos e interpretações próximas a  esse universo “cafona”, seja como transitou, com extrema naturalidade, pelos espaços dessa “música  brega”, Raul Seixas carregou consigo, além de seu já conhecido apreço pelo rock, uma forte semente  desse segmento musical tão popular.

Enquanto vendia uma enormidade de discos e alcançava relativo reconhecimento de crítica, no início dos anos 70, Raul Seixas propagandeava uma série de inusitados projetos. Falava de alguns encontros com discos-voadores e com John Lennon, de uma suposta cidade onde colocaria em prática os princípios da “Sociedade Alternativa”, que ele e seu parceiro Paulo Coelho vinham então arquitetando, ao mesmo tempo em que chamava atenção para seus anseios de publicar um livro infantil, um tratado de metafísica, produzir um filme, uma peça de teatro ou mesmo se candidatar a deputado federal. Isso tudo, que nunca passou de discursos acalorados de Raul Seixas, é bastante conhecido atualmente e tratado como marca de um indivíduo rebelde e inconformado. Mas, no calor do momento, naquele início de década, além de ser visto como uma mera estratégia de divulgação, encontrou muitas barreiras em sua recepção pela crítica. Taxado de louco, insano e mentiroso, Raul Seixas, no início da carreira, sofreu para encontrar certa legitimidade para tudo aquilo que vinha falando e fazendo. Com o passar dos anos, sua afirmação no campo musical foi dando a essas “mentiras” um caráter até interessante, fazendo de Raul Seixas um artista extrovertido e singular, de uma rebeldia cativante e muito popular.

A chegada dos anos de 1980 marca o início de uma agonia física e artística do cantor. As primeiras ondas do punk rock internacional chegaram ao Brasil incentivando a formação de uma série de bandas e arrebatando uma legião de fãs. Raul Seixas, como um dos precursores do rock nacional, até poderia usufruir de uma “paternidade” do gênero, mas alguns fatores levaram sua carreira a entrar em uma completa decadência. Primeiramente, toda a ideologia do punk rock trazia um modus operandi de fazer musical radicalmente distinto daquele a qual Raul Seixas havia se consagrado, segundo, seus problemas físicos vinham aumentando bastante, agravados pelo abuso com álcool e drogas. O outrora midiático Raul Seixas tornara-se persona non grata entre as gravadoras e meios de comunicação. E, assim como Mozart, uma morte trágica, lenta e dolorida lhe aguardava em 1989. 

Apesar de ambos terem sofrido muito em seus anos finais de vida, pelo ostracismo de suas respectivas carreiras artísticas, o contexto das mortes de Raul Seixas e Mozart não se assemelha muito. Raul já havia alcançado o ápice e vivia um rigoroso período de decadência; Mozart, pelo contrário, nunca conseguiu o reconhecimento do público vienense, o qual tanto desejava. Imediatamente após a morte de Raul Seixas, uma legião de fãs corria atrás do carro do corpo de bombeiros, que levava o caixão com seu corpo. Mozart ainda teria de esperar alguns anos, após a sua morte, para ter seu nome realmente eternizado na história da música.

Mas, talvez, a grande diferença entre as trajetórias e as imagens de Raul Seixas e Mozart, se dê, exatamente, na forma como ambos expressaram uma insubordinação social. Se Mozart é pouco lembrado pela sua rebeldia em vida, ele, na verdade, levou às últimas consequências uma desobediência que culminou em uma morte trágica e dolorida. Já Raul Seixas, que atualmente sustenta a imagem de um eterno insurreto, soube como poucos se adequar ao mercado, dosando e vendendo sua rebeldia como forma de consagração.

Bibliografia
ELIAS, Nobert. A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
____________. Mozart, sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
PASSOS, Sylvio. Raul Seixas por ele mesmo. São Paulo: Martin Claret, 2003.


* Sinopse da aula ministrada na Universidade do Porto, em 25 de Março de 2015. Publicado originalmente na Revista café com Sociologia.
**  Doutorando Em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.





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